2020: um ano diferente

 

“Senhor! Que quereis que eu faça? Aquela alma resoluta, mesmo no transe de uma capitulação incondicional, humilhada e ferida em seus princípios mais estimáveis, dava mostras de sua nobreza e lealdade.” Ao nos depararmos com esta afirmativa de Emmanuel a respeito do venerável apóstolo Paulo, no livro Paulo e Estevão, de sua autoria espiritual, vemos aí a descrição perfeita da mudança de postura mental de alguém que caminhava em defesa dos postulados farisaicos para o reencontro com o seu “eu” mais profundo e a partir daí o encontro com a Verdade, libertando-se pouco a pouco das viciações seculares. 

O caminho de Damasco não foi percorrido apenas por Paulo e seus servidores à época do inicio da era cristã, como relatado, em especial por Lucas em Atos dos Apóstolos 6:9, mas pelo próprio Paulo em todas as suas cartas. Este caminho também é percorrido por cada um de nós, quando nos deparamos com o velho homem que trazemos internamente e que as luzes do Evangelho vêm despertar essa mudança de direção. 

Mudança, esta que nos foi propiciada pelas noticias internacionais no início deste ano de 2020, de um vírus, proveniente de Wuhan na China, o SARS-CoV-2, um vírus da família Coronavirus que apresenta um espectro variado em suas manifestações, desde infecções assintomáticas até quadros muito graves que podem desencadear a qualquer momento o desencarne do paciente infectado, sendo a infecção deflagrada pelo contato interpessoal.

A partir da alta taxa de infectividade, os países asiáticos, o mundo europeu e islâmico, as Américas e a Oceania, decretaram um toque de recolher, onde para conter a onda de transmissão foi necessária uma mudança brusca, repentina do modo de viver até então. 

As pessoas se recolheram dentro de casa, para trabalhar, para estudar, para conviver. A convivência que era diária, mas em horários pré-determinados ao longo do dia, tornou-se ininterrupta. Os idosos foram afastados do convívio com seus entes queridos e os amigos, pois foi a parte da população mais frequentemente vitimada pela infecção viral. As crianças e jovens, tiveram que dividir a sua tela do celular ou do Ipad, que anteriormente era direcionada pelos jogos e vídeo séries, com os professores e colegas de escola em aulas que pareciam e parecem ainda intermináveis e extremamente desinteressantes. Os pais tiveram que aprender a serem professores de seus filhos em um processo de assistência aos educadores, mas na maioria das vezes com nenhuma ou pouquíssima didática escolar. E além disso, tiveram forçosamente de aprender que além da tarefa de trabalho na jornada diária, que antes era pelo menos de 8 horas por dia,  estava também incluso  cuidar da casa, da roupa, do almoço, do jantar, dos lanches, das tarefas escolares dos filhos, da educação religiosa de todos, das compras online, dos animais de estimação, dos problemas dos familiares distantes e passaram a lidar também com a própria insegurança e o medo difundido freneticamente pelas redes sociais, pelo rádio e  pela televisão. 

Nunca se viu tanta dificuldade em administrar tantas coisas ao mesmo tempo, mas em especial as emoções. A emoção individual, a emoção dos familiares mais próximos e mais distantes, a emoção dos amigos, as saudades de se ter uma vida dita “normal”, associada a isso, um recolhimento forçado dentro de casa. 

Mas é sempre bom lembrar: a nossa casa não seria o melhor lugar para estarmos? Não são os nossos laços familiares, em especial os consanguíneos, a nossa fortaleza e o nosso rochedo nesta presente existência? Não seria o lar em que nascemos ou que constituímos, o local mais adequado para aprendermos a sermos tolerantes e fraternos? A praticar o amor verdadeiro indiscutivelmente? 

Mas ao contrario do que pensamos ou o que falamos, enquanto estudiosos do Espiritismo, foi exatamente neste lar, onde tivemos as maiores lutas travadas entre quatro paredes neste período de isolamento, dito social. Apesar de termos  um ambiente doméstico que para muitos foi sinônimo de acolhimento, de união, de fraternidade entre pais, filhos e avós, foi dentro do lar, para outros, aliado ao medo ou à insegurança e ao transtorno emocional de cada um, que tivemos um incremento significativo da violência doméstica verbal, psicológica e física; foi para dentro deste lar que os mais variados tipos de  vícios estiveram mais presentes neste período; foi para dentro deste lar que as crianças passaram a ser desestimuladas nas suas tarefas diárias; foi para dentro deste lar que o desemprego tomou proporções inesperadas de norte a sul do país; foi em muitos lares que Jesus continuou a ser um desconhecido para uma boa maioria. 

Assim, vemos nesta situação inusitada em que a população mundial foi submetida, como nos diz Allan Kardec no livro Obras Póstumas, no capítulo que trata do “Orgulho e Egoísmo”, o quanto ainda temos que aprender a nos conhecer; o quanto é necessário buscar em nós recursos para despertar o que de melhor temos internamente em detrimento do que se passa fora de nós, que não temos controle; o quanto ainda temos que aprender a olhar para o outro e esquecermos do nosso orgulho e da nossa vaidade. Assim, então o Codificador relata: “A causa do orgulho está na crença, em que o homem se firma, da sua superioridade individual. Ainda aí se faz sentir a influência da concentração dos pensamentos sobre a vida corpórea. Naquele que nada vê adiante de si, atrás de si, nem acima de si, o sentimento da personalidade sobrepuja e o orgulho fica sem contrapeso.”  

Observando então esta fala de Allan Kardec, nos perguntamos: “Senhor! Que queres que eu faça” nestes momentos de dificuldades?

À semelhança de Paulo de Tarso, em seu caminho para Damasco, um turbilhão de situações, de falas, de imagens perpassaram o seu intelecto, mas sem estenderem-se para o coração, antes do seu encontro com Jesus. Assim, estamos nós: ainda sobressaltados pelas notícias, com a sensação de medo iminente, pensando exclusivamente em nós e deixando que o acaso cuide do outro. 

O COVID 19, veio então para nos mostrar neste ano de 2020, que, apesar do avanço tecnológico, do avanço das pesquisas em saúde, das comunicações em velocidades gigantescas e de todo um arcabouço econômico direcionado para reter o avanço da enfermidade, estamos ainda, cada um de nós, com dificuldades para nos conhecermos, de saber quem somos realmente; dificuldade de entender  que a vida do outro vale tanto quanto a nossa; que somos filhos de um mesmo PAI, justo, amoroso e soberanamente bom; que é necessário ser fraterno, ser amável verdadeiramente e deixar que este amor imenso que se estende sobre a família, chamada, HUMANIDADE, nos una como irmãos; e por último, nesta pequena análise do que este ano representa para nós, necessitamos relembrar a cada instante que somos seres espirituais em uma jornada material e que neste continuum da vida nos dois planos, a morte ou o desencarne é uma viagem real, necessária e repleta de aprendizados para o espirito imortal, perpassando a finitude inúmeras experiências de enriquecimento pessoal, através do autoconhecimento, da autorrealização  e da auto superação das dificuldades internas.

Pensando neste caminho percorrido pelo ser espiritual, nos lembramos de Milton Nascimento em sua música Encontros e Despedidas: “São só dois lados da mesma viagem, o trem que chega é o mesmo trem da partida. A hora do encontro é também de despedida… A plataforma dessa estação é a vida desse lugar, é a vida desse meu lugar, é a vida…”

Aproveitemos o momento presente, em que ainda estamos recolhidos socialmente, para instalar em nosso coração e em nossa mente o verdadeiro amor, a verdadeira fraternidade, a verdadeira VIDA, em última instância. Amai-vos e Instruí-vos, já nos orientava o Codificador. É necessário que assim seja!

Márcia Léon, vice-presidente da Associação Médico Espirita do Planalto

(AME Planalto)

 

 

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