Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará a outro, ou se prenderá a um e desprezará o outro. Não podeis servir  simultaneamente a Deus e a Mamon. (Lucas, 16:13.)

 

Em 2002, aos vinte e quatro anos, recém-saída dos bancos da faculdade de Medicina Veterinária e recém concursada no IBAMA, saí de Belo Horizonte/MG e fui morar em Boca do Acre/AM, pitoresca cidade interiorana do Amazonas, onde o rio Acre desemboca no rio Purus. Superada a visão poética e bucólica do interior, logo a realidade bateu à porta: as ruas que eram de terra, quando chovia, tornavam-se de lama; na televisão, só havia dois canais, sendo que não funcionavam simultaneamente; o jornal só era entregue duas vezes por semana quando vinham os voos de Manaus/AM (a cidade tem um pequeno aeroporto); sem acesso à internet, sem torre de telefonia de celular, sem saneamento básico, sem água potável (!), além de pernilongos (carapanãs) que me devoravam. Claro que não demorou para querer sair daquele lugar, mal sabia que seriam dez meses de grande aprendizado, e o mais importante deles, permita-me o leitor compartilhá-lo nas próximas linhas.

Em junho de 2003, chegou à unidade do IBAMA uma equipe de Rio Branco/AC (Boca do Acre/AM fica na divisa entre o Amazonas e Acre) a fim de desenvolver um trabalho nas comunidades ribeirinhas ao longo do rio Purus até a cidade de Lábrea/AM. Com o espírito aventureiro que só os vinte e poucos anos permitem, voluntariei-me a acompanhar a execução dessa missão. Então, arrumei a mochila e fui. O trabalho, na verdade, era ministrar cursos de educação ambiental para três comunidades ribeirinhas, formadas, anteriormente, por seringueiros, mas que, naquele momento, viviam de pesca, lavoura da várzea e coleta de seringa e de outros produtos da floresta. 

As comunidades localizavam-se depois da cidade de Pauini/AM, a qual, por sua vez, ocupava o primeiro lugar, à época, do triste ranking de menor IDH (índice de desenvolvimento humano) do Brasil, ou seja, era ainda mais pobre que Boca do Acre/AC. Se na zona urbana era assim, imaginem as comunidades ribeirinhas que viviam isoladas ao longo do rio… Ah sim, esqueci de mencionar, mas, como já podem ter deduzido, a nossa “estrada” era o rio Purus, enquanto o nosso “carro” era uma voadeira (embarcação movida a motor com estrutura e casco de metal e motor de popa) para a qual não tinha coletes salva-vidas. 

Chegamos à primeira comunidade ao anoitecer. Montamos nossas redes em um quarto gentilmente cedido por um dos moradores, fomos auxiliadas pelas crianças que buscavam gravetos para montarmos nossas telas mosquiteiro nas redes. Confesso que era a primeira vez que montava uma tela mosquiteiro de rede, portanto, fiquei bastante agradecida pelo apoio da criançada. Bom, hora de ir ao banheiro, né? Sim, é uma casinha cujo “vaso” lembrava aqueles que vemos em museus. Vejo um balde com cal e, imediatamente, compreendo como devo “dar descarga”. Embora estivesse suja por causa do peculiar translado até a comunidade, o banho teria de esperar até o dia seguinte, afinal, como já havia anoitecido, não poderia ir até o rio para banhar-me. Sim, durante 21 dias, tomei banho de rio. O rio Purus, para quem não conhece, é um rio sedimentar, ou seja, a água é marrom, logo, nem um pouco convidativo. Felizmente, na última comunidade, havia um igarapé (pequeno rio), por conseguinte, a água era mais clara, aí sim era gostoso, dava até para nadar!

Energia elétrica? Não tinha, só de noite, se ligassem o gerador. O fogão era a lenha; as casas eram feitas de madeira; enfim, estava inserida em uma realidade absolutamente diferente de tudo que experienciara até então. À noite, todos se reuniram para o jantar. Obviamente, aproveitamos a ocasião para conversarmos, conhecermo-nos. Observo a gentileza e a alegria que nos tratam, e o respeito que tratam os mais velhos. Todos que ali chegavam pediam “benção” à senhora mais idosa, fossem crianças, fossem adultos.

No primeiro dia de aula, fomos para a escola da comunidade, cujas aulas foram suspensas a fim de que as crianças pudessem participar das atividades promovidas pela nossa equipe. Ao chegarmos ao local indicado, todos os alunos já se encontravam sentados esperando os “doutores” falarem sobre Biologia, Ecologia, meio ambiente, conservação, camada de ozônio, aquecimento global, respeito à natureza. Fui informada que uma das alunas era a professora da comunidade. Embora fosse uma “filha da terra”, mudou-se para Lábrea, onde estudou o ensino médio e, supostamente, aprendeu o suficiente para voltar à comunidade para dar aula. Com efeito, era uma das mais instruídas do local, vez que lá não residiam outros professores (formais), médicos (em uma das comunidades tinha um agente de saúde), engenheiros, policiais tampouco tantas outras profissões. Nossos alunos eram, inquestionavelmente, pessoas simples, mas, ainda assim, sedentos de saber.

Durante o período que ali estive, senti o que é viver com escassez de coisas materiais, ainda assim, nenhum dos nossos alunos trocava a vida no ex-seringal para morar na cidade, pois, tinham plena consciência da riqueza da qual eram possuidores. 

Lembro que as crianças pequenas eram deixadas juntas enquanto as mães cozinhavam. Dessa forma, todas as mães podiam cuidar de todas as crianças. O respeito pelo próximo e a gentileza até pequenos gestos me tocaram profundamente. 

Eram comunidades unidas, de famílias que se respeitavam, de crianças felizes. Nunca fui abraçada de forma tão verdadeira e com tamanho amor por pessoas que tinha recém-conhecido. Certamente, tinham os seus problemas, contudo, a despeito deles, sabiam viver o amor e compartilhar o que tinham. 

Fui lá para ensinar, mas acabei aprendendo uma grande lição: não é necessário ter bens materiais para ser feliz, mas sim ter amigos e família. O amor é a nossa maior riqueza.

Encerro essa reflexão com uma frase do grande Guimarães Rosa: Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.

Acervo pessoal de Raquel Sabeini (clique para ampliar):

 

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