O ano era 1994. Um jovem americano de dezessete anos, Mike Emme, filho do casal Dale e Darlene Emme, conhecido por muitos por ter uma personalidade caridosa, muito estudioso em mecânica, conseguiu restaurar um Mustang 68. Para grande surpresa da sua família, pintou o carro todo de amarelo. Porém, aquelas pessoas que conviviam com o jovem Mike, incluindo seus pais, não conseguiram observar, naquela época, os sinais de angústia que lhe iam na alma há bastante tempo. Assim, depois de muito lutar consigo mesmo, Mike desencarnou pelas vias do suicídio naquele mesmo ano. No seu velório, amigos e familiares prepararam uma grande cesta com muitos cartões decorados com fitas amarelas e, no interior de cada cartão, continha os seguintes dizeres: Se você precisar, peça ajuda.

Esse movimento dos jovens amigos de Mike foi um catalizador eminente para que se desencadeasse medidas urgentes para a prevenção ao suicídio em pessoas de todas as idades, pois esses cartões, ao serem amplamente distribuídos, realmente chegaram às mãos de pessoas que estavam necessitando de ajuda. Em decorrência dessa triste história, o mês de setembro foi escolhido como símbolo da luta mundial contra o suicídio, sendo simbolizado por um laço amarelo. 

Desde tempos imemoriais, as vias do suicídio são utilizadas para colocar fim que às inúmeras adversidades que o ser humano, em especial, às dores advindas de inúmeras situações que fogem ao seu controle emocional. 

Os motivos são vários, desde uma desilusão amorosa, um sentimento de menor valia, dificuldades de autoaceitação, dificuldades em estabelecer relações interpessoais saudáveis, adoecimentos físicos crônicos e, muitas vezes, incapacitantes, passando pelos desequilíbrios psicológicos, transtornos mentais e dependências químicas de toda a espécie. Isso para não dizer daqueles que passam por situações de extrema pobreza ou aqueles cuja etnia, cultura e religião identificam as vias do suicídio como um fator de autoafirmação, motivo de honra e defesa dos seus valores culturais. 

Os fatores são inúmeros e das mais variadas nuances. Entre os jovens, a incidência tem se alastrado gradualmente ao longo dos últimos anos, assim como entre as crianças, já que o fator imaturidade emocional e a incapacidade de lidar com as próprias emoções são experiências, muitas vezes, frustrantes para estas faixas etárias. Muitas vezes, como aconteceu ao próprio jovem Mike Emme, os pais ou os cuidadores não prestam a devida atenção no que vai no íntimo destes adolescentes e crianças e não identificam sinais muitas vezes “gritantes” de sofrimento no dia a dia deles. Muitas vezes, o indivíduo está se sentindo só, mesmo no meio da multidão. 

Inúmeros pesquisadores no campo da Suicidologia nos alertam para alguns tabus que cercam o tema como, por exemplo, as que pessoas que ameaçam se suicidar não se suicidam. Pelo contrário, a maioria avisa antes de levar a cabo sua intenção. Outro exemplo é o que diz quem quer se matar se mata mesmo; a maioria dos que pensam em se matar apresentam sinais de ambivalência, ou seja, querem se livrar do sofrimento intenso que vivenciam, mas não querem morrer. Muitos acham que os suicídios não podem ser prevenidos, mas, ao contrário, os suicídios são passiveis de prevenção em até 90% dos casos. 

Sendo assim, falar sobre o suicídio é derrubar tabus, é falar sobre as dores e as aflições que nos vão na alma, é compartilhar apoio e esclarecimento sobre o tema. 

Em média, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, em todo o mundo, são oitocentos mil casos de suicídio por ano (no Brasil, são trinta e dois casos por dia); dois mil e duzentos casos por dia; uma morte a cada quarenta segundos e uma tentativa a cada doze segundos. E mais, para cada suicídio consumado, pelo menos seis a dez pessoas estão envolvidas em suas consequências diretas, geralmente no âmbito familiar e amigos próximos.

Ao contrário do adulto que passa pelo processo da ideação suicida e planeja tal ato, as crianças e adolescentes agem, em sua grande maioria, impulsivamente, tendo, felizmente, uma menor taxa de assertividade na concretização do autoextermínio. Por outro lado, nesta faixa etária, predomina a automutilação, traduzida, em última instância, como a dor produzida por um objeto perfurocortante capaz de se sobrepujar e servir de escape à dor que lhe vai internamente no campo das emoções e dos sentimentos. 

Em todos os aspectos discutidos até o momento, é necessário nos perguntarmos: afinal, quem verdadeiramente sofre? O corpo ou o espírito? 

Sabemos que o espírito imortal; traz em si inúmeros fatores internos desta e de outras vidas que desencadeiam, ao longo da existência atual, em situações extremamente dolorosas no campo imaterial que refletem diretamente no campo e no corpo físico. 

Os sentimentos que norteiam toda esta ambivalência no campo do suicídio enfrentado pelo ser espiritual passa por um sofrimento que é intolerável, interminável e sem nenhuma outra possibilidade de saída frente às adversidades. E tudo isso é fator de transtorno infindável em sua vivência interior, que não consegue, de forma prática ou racional, tomar as rédeas de suas emoções e sentimentos, não vendo uma solução para a sensação do seu desespero e desamparo que abriga no íntimo do seu campo mental.  

A casa espírita recebe frequentemente esta busca por ajuda. São inúmeros aqueles que, por meio atendimento fraterno, presencial ou virtualmente, buscam o acolhimento, buscam o conforto para as suas dores internas, buscam respostas para suas aflições, buscam laços de auxílio para os seus mais variados questionamentos, buscam saídas para os seus desesperos, buscam socorro e alívio de suas dores.

Em casos eminentemente agudos, é necessária a avaliação dos profissionais da área de saúde mental e, muitas vezes, internações compulsórias na defesa daquela vida, tendo como aparato maior, a família que também vivencia estes dramas.

 Mas em casos em que se percebe a ideação pelo suicídio, em especial, o planejamento, é necessário que nos recordemos do profeta Isaías que nos adverte no capítulo 42, versículo 18: Ó surdos, ouvi! E vós, cegos, fixai vossos olhos, para que possais enxergar. Ou seja, que possamos utilizar da nossa proatividade para ouvir quem sofre e visualizar recursos que possam trazer benefícios para aquele ser em sofrimento, para que a dor se dilua no recurso da fala e do diálogo amoroso e atento. 

 

É na fala de Jesus, no capítulo das bem-aventuranças, que podemos nos amparar: Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados, em Mateus capítulo 5, versículo 4. Temos a oportunidade, pois, de levar àquele que se desespera a nossa escuta amorosa, sem julgamentos ou sugestões, resistindo ao hábito dos conselhos, ofertando apenas a nossa mão estendida, nossos ouvidos atentos ao acolhimento pelo silêncio ativo, no sentido de proporcionar a este irmão a possibilidade de extravasar pela fala as suas dores, o seu sofrimento e, com isso, obter o alívio psíquico de que tanto necessita.

Sejamos os que podem contribuir, na seara de Jesus, com amor e compaixão, utilizando os nossos recursos internos para ajudar todo aquele que direta ou indiretamente está vinculado a cada um de nós e que sofre exaustivamente. O chamado é urgente! 

 

*Márcia Léon, médica e vice-presidente da AME Planalto

 

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