Um chamado divino para a sublime escolha

Em nosso processo evolutivo, somos convidados pelo Criador a adentrar no Reino dos Céus pela porta estreita que nos conduz à vida essencial por intermédio do exercício das virtudes contidas no código moral de lei da consciência. No entanto, ao marcharmos pela estrada da vida, quase sempre abraçamos a viciação e atravessamos a porta larga que nos transporta à ansiedade e à desdita, sob o aguilhão da preguiça moral, da empáfia, das facilidades inebriantes, da luxúria, da hipnose mental, da inveja, que repletam o mundo transitório das ilusões.

Eis aí a abertura da perdição, porque são amplas as viciações que trazemos enraizadas em nossa milenar e sombria hegemonia do egoísmo. Marchando de tal modo, a vida nos relega a assumirmos as consequências de nossas escolhas egóicas, consoante indicado na máxima do Cristo: Muitos são os chamados e poucos os escolhidos (1).

Os escolhidos conseguem despertar as potencialidades do ser essencial para a evolução do eu-divino que somos em essência, o qual, por sua vez, é infinitamente maior do que as conquistas transitórias das coisas impermanentes ao longo do tempo. Por isso, a comparação da majestática festa, em que tudo é beleza e contentamento, posto que aquele que evolui essencialmente e que passa a conhecer e conviver em harmonia com o código moral de lei da consciência vive de forma leve, suave, alegre e feliz.

Resolvido o problema do espírito pela autoeducação, pelo esforço ininterrupto, tudo nos será acrescentado e nada nos entristecerá, nem as questões econômicas, nem as dificuldades de relacionamento, ou mesmo de saúde, porque, conectados com a essência divina, transcenderemos a todos os desafios fugazes da matéria.

A rigor, temos, naturalmente, dois tipos de apetite: da fome material e da fome espiritual. Para atender a fome do corpo físico, empenhamo-nos, lutamos, lançamos mão de todos os recursos transitórios. Mas, quanto à fome espiritual, comumente nos descuidamos. Nem queremos saber que temos necessidade de alimento espiritual. Ignoramos essa necessidade e até tratamos mal os que nos a oferecem.

De fato, a maioria de nós quer a cura para o corpo, a solução para os problemas de ordem material, mas são raros os que querem aprender a amar, a servir, a ser útil ao próximo. A História nos apresenta seres moralmente esclarecidos, que trabalharam para levar o alento espiritual (compreensão das leis divinas da consciência) e foram incompreendidos, insultados, e muitos pagaram com a própria vida por terem escolhido se amarem e amarem o seu semelhante. O exemplo maior é o do próprio Cristo.

A rigor, todos somos convidados, porém, não basta sermos chamados, é necessário “vestirmos a túnica”, ou seja, purificarmos os sentimentos e praticarmos a lei de amor, justiça e caridade, a fim de reunirmos condições para sermos escolhidos no divino festejo.

Não basta saber, é preciso sentir e realizar. Não adianta tão somente informação teórica, mas experiência transformadora. O critério da divinal escolha depende de nós, do nosso desempenho no bem, para nos adjudicar o caminho para a Vida Maior.

Jesus, referindo-se à Divina Ascensão para a Vida Maior, disse que serão muitos os chamados e poucos os escolhidos para o reino dos céus. Isso quer dizer que, sem chamada, não há escolha. Mas se estamos claramente informados de que a chamada vem de Deus, atingindo todas as criaturas na hora justa da evolução, só a escolha, que depende do nosso discernimento e exemplificação de amor, nos confere caminho para a Vida Maior.

Sobre a questão de um dos chamamentos especiais, recordamos o espírito Emmanuel, citando Francisco de Assis na monumental obra A caminho da Luz. Segundo o emérito autor espiritual, na Idade Média, os apelos dos Benfeitores da Humanidade insistiram para que a igreja romana oferecesse a aplicação do código do amor e da fraternidade em todas as direções. Até porque, os movimentos tidos como “heréticos” (para os bispos da Cúria) germinavam por toda parte em que existissem consciências livres e corações sinceros. Contudo, as autoridades eclesiásticas estorvaram os apelos do Alto.

No início do século XIII, o combate contra os “hereges” abarcou o espaço de duas décadas, quando componentes do alto clero da Cúria de Roma deliberaram o baldrame do tribunal da penitência. O desígnio era precipuamente disfarçar tal empreendimento à guisa de administradora imperativa de suposta unificação religiosa, contudo o objetivo real era alargar a extensa autoridade clerical sobre as consciências livres.

Em verdade, se a Inquisição absorveu as autoridades da Igreja antes da sua fundação, como notamos acima, do mesmo modo preocupava os benfeitores do além, motivo pelo qual foram providenciadas medidas de renovação educativa em chamadas específicas.

Portanto, dentre tais convocados transcendentais, observamos a consolidação da reencarnação do ínclito filho de Assis que, em emblemático momento, ouviu dos céus a voz: Francisco, reconstrói a minha igreja.

Em sua sincera humildade, o servo do Cristo começou, das ruínas, a reedificar a pequena Igreja de São Damião, o que fez com zelo e amor, mas o tempo mostrou que a reconstrução proposta era muito mais profunda e marcante: a convocação e a atividade de Francisco iriam ser reformistas, sem os choques próprios da verborragia; o seu sacerdócio seria o exemplo na pobreza, na mais absoluta humildade.

Nem por isso, o clero entendeu que a lição franciscana lhe dizia respeito e, ainda uma vez, não abrigou os convites dos operários divinos. A diligência atuante do filho da Úmbria não logrou decompor o furor de domínio dos pontífices romanos, porém deixou traços cintilantes e indeléveis da sua passagem na Terra. Seu exemplo de simplicidade e de amor, de singeleza e de fé contagiou numerosas criaturas, que se entregaram ao mister de regenerar almas para Jesus.

De fato, os seguidores de Francisco não aderiram a porta larga nem repousaram à sombra dos mosteiros, na falsa quietude sob a inócua contemplação, pois reconheceram que a melhor oração para Deus é a da porta estreita, do trabalho útil, do aprimoramento do mundo e dos corações pelos exemplos de renúncia.

Aliás, os discípulos do conspícuo filho da Úmbria destacam no exercício do amor a universalização das profundas reflexões acerca da memorável oração. Nesse sentido, quando decodificamos o cântico de Francisco, à primeira vista, temos a impressão de que o filho de Assis apenas nos convida a sairmos por aí (esmolando), distribuindo coisas (materiais) a serem entregues aos esfaimados, porém, na verdade, a grande proposta de Francisco é que mergulhemos em nós mesmos de modo que, onde houver o ódio em nosso mundo interior, levemos amor; onde houver ofensa em nosso coração que plantemos o perdão.

A oração de Francisco é um convite para trilharmos um caminho de aprendizado e autotransformação e tem o código moral de leis como referência máxima a fim de que possamos trilhá-lo pelas vias da consciência.

Recordemos que Jesus nos convidou: vinde a mim, todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei comigo que sou brando e humilde de coração e achareis repouso para vossas almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo (3). Se aceitarmos esse convite, observaremos, na oração de Francisco de Assis, um roteiro seguro de como fazer isso: seguir o caminho do Evangelho para sermos escolhidos na condição de aprendizes do governador planetário.

Em todas as iniciativas humanas, somos chamados para realizações nobres, no entanto, cobertos pela sombra dos egos (evidente e mascarado), prontamente desinteressamo-nos de avançar por ausência de retorno compensador ao vazio existencial, absorvendo-nos e entulhando-nos de ansiedades e ações no afã de aquisição de coisas vãs.

Em contrapartida, ao galgarmos a estrada da evolução, faz-se mister a prudência, a temperança, a fé, a esperança, a caridade, de modo a percorrermos o caminho das lutas, dos obstáculos, dos sacrifícios em busca do autoaperfeiçoamento. Destarte, permaneceremos aparelhados para um porvir de contentamento e felicidade.

É uma estrada árdua, bem sabemos, pois, como poderemos levar longo tempo para retomar o caminho que nos, requer-nos cuidado no instante de escolhermos a trilha a ser seguida, bem como a compreensão, de maneira definitiva, da importância da postura de vigiarmos e orarmos, tão alertada por Jesus.

Cada vez mais, é nos exigido austeridade quando da prática das ações iluminativas. Arrostando as lutas, adquirimos sabedoria; recorrendo à oração como fonte de energia, ascenderemos e, inelutavelmente, triunfaremos sobre as dificuldades que já não nos serão intransponíveis na caminhada, mas apenas um desafio no processo de autoevolução.

Portanto, na admoestação muitos são os chamados e poucos os escolhidos (2) para ingressarmos nos “Recintos celestiais”, metaforizado na majestosa festa, na qual tudo era felicidade e alegria, podemos compreender como um convite para a evolução essencial, consoante a afirmativa de Jesus de que o “reino divino” está em nossa própria consciência.

 

Referências:

1) Mateus, 20:16-20

2) idem, 22: 1-14

3) idem, 11:28-30

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