É natural que muitos leitores achem estranho o tema abordado neste artigo. Isso porque, na maioria das vezes, apenas os livros psicografados ou aqueles de conteúdo estritamente espiritualista são alvo de comentários no círculo espírita.
Mas devemos lembrar que a literatura é muito mais profunda e abrange dimensões extremamente variadas com respeito ao seu conteúdo. Um “livro clássico”, por exemplo, reflete os valores de sua época, mas, ao mesmo tempo, tem a capacidade de ser atualíssimo, transmitindo esses valores aos leitores do presente, e sendo capaz de operar mudanças no íntimo de cada um.

A “literatura clássica” proporciona o aprendizado de forma lúdica e segura, ao mesmo tempo que permite o acesso das novas gerações aos conhecimentos e valores universalmente aceitos como válidos e que foram acumulados durante toda a história da humanidade.

Sêneca, o Moço (filósofo e figura pública durante o império romano) afirmou que “a leitura nutre a inteligência”. E até mesmo a Criatura de Frankenstein admite: “É difícil descrever os efeitos desses livros. Suscitaram em mim um infinidade de novas imagens e sentimentos.”

Nesse contexto, Frankenstein, de Mary Shelley, escrito em 1818, e considerado o primeiro do gênero literário de ficção científica gótico-psicológica, traz à tona diversas elucubrações a respeito da psicologia e da sociologia do ser humano, refletidos nos aspectos do orgulho, arrogância, ódio e vingança, além de explicitar os maus resultados provenientes de uma criação infantil deficitária e marcada pela solidão e rejeição.
Neste conto, o jovem médico e cientista Victor Frankenstein, em sua ânsia por conhecimento, poder e glória pessoal, torna-se obcecado com a ideia de ser capaz de igualar-se a Deus, criando ele mesmo uma nova espécie de ser humano. Victor não mede esforços e acaba por sacrificar sua vida social, amorosa e até mesmo sua família nesse intuito.
No entanto, após a conclusão de seu trabalho, ele demonstra toda a extensão de seus preconceitos, de seu orgulho ferido e de sua falta de compaixão ao ficar horrorizado com a aparência de sua criatura. Nesse momento, Victor rejeita seu “filho” e o abandona a própria sorte. A “Criatura”, que sequer recebeu um nome do seu criador, passa então a viver sozinha e escondida em um bosque, sem ter ninguém para orientá-la ou expressar-lhe alguma afeição.

Mesmo assim, a criatura consegue angariar conhecimento e virtudes morais através da observação dos elementos da natureza, da leitura de alguns livros e, principalmente, da

observação de uma família extremamente honrada e bondosa.

No entanto, outra vez a humanidade demonstra toda sua imaturidade moral ao reagir com ódio e violência contra a Criatura, unicamente devido ao seu aspecto “monstruoso” com relação ao seu tamanho e à sua feiúra.

A Criatura, ainda assim, tenta se reencontrar com seu criador, com o objetivo de obter compreensão e acolhimento. Mas Victor novamente a renega, com repulsa e indignação, apesar de ter ouvido todo o relato da tristeza e solidão que foi a vida da Criatura após seu abandono pelo próprio criador.

A partir desse momento, os sentimentos de crueldade e vingança apoderam-se por completo da Criatura, corroborando o conceito de que uma má criação durante os primeiros anos de vida pode fazer total diferença no caráter e na personalidade de um indivíduo, bem como a incompreensão e a rejeição por parte da sociedade.

No início de sua vida, a Criatura era inocente, delicada e inclinada ao bem. Mas, segundo ela própria, o desprezo e a incompreensão por parte da humanidade a transformaram em um ser desgraçado e cheio de ódio (“Crê-me, Victor, eu era bom; minha alma ardia de amor e humanidade; mas não estou sozinho, miseravelmente sozinho? Tu, meu criador, me odeias; que esperança posso ter junto aos teus semelhantes, que nada me devem? Eles me rejeitam e odeiam” “Se a multidão dos humanos soubesse da minha existência, agiria como tu, e se armaria para me destruir. Não hei de odiar, então,  quem me abomina? Não vou render-me aos meus inimigos. Sou um desgraçado e eles hão de compartilhar minha desgraça.”). Tal trecho é revelador da trama que percorre todo o livro: a maldade (ou a simples omissão da bondade) atrai mais e mais elementos negativos para junto de si; enquanto o bem, o carinho e a compreensão podem fazer milagres e sobrepujar as más inclinações de um indivíduo).

O restante do livro detalha a relação conflituosa e as agressões mútuas ocorridas entre “criador” e “criatura”, ” pai” e “filho”, até culminar com a destruição de ambos, em um círculo infinito de ódio e vingança.

Quando observamos os estudos e as interpretações acadêmicas a respeito desse conto, deparamo-nos com observações que focam em alguns elementos como: o caráter gótico, ficcional e de terror do conto; a importância dada ao complexo de superioridade do ser humano querendo ser Deus (o Prometeu moderno); o perigo da utilização inescrupulosa dos avanços tecnológicos alcançados pela humanidade; o papel inferior protagonizado pelas mulheres; entre outros. Entretanto, uma análise mais profunda feita por todos aqueles, espíritas ou não, que se atentem mais aos aspectos espirituais e morais da estória, torna fácil evidenciar a lei da evolução atuando no desenvolvimento do caráter, da personalidade, do sentimento e da espiritualidade dos seres humanos no âmbito do processo civilizatório em que nos encontramos.

O livro contempla uma perfeita descrição do estágio evolucionário atual da humanidade em nosso planeta. As principais mazelas representadas pelo egoísmo, orgulho, ganância, sede de poder e ódio saltam aos olhos do leitor na postura do jovem médico, onde o seu trabalho só era por ele mesmo valorizado se fosse revestido de “qualidades materiais”, tais como, o reconhecimento de sua inteligência e/ou excepcional capacidade, bem como a eterna gratidão pelo seus feitos (No Capítulo 4, Victor comenta – “Uma nova espécie abençoar-me-ia como seu criador e origem; muitas naturezas felizes e excelentes deveriam a mim a existência. Nenhum pai poderia reivindicar a gratidão do filho tão completamente como eu mereceria a deles”). Para Victor, a criação de um ser vivo somente poderia ser considerada um sucesso caso essa criatura fosse revestida de elementos fúteis, essencialmente a beleza e a proporcionalidade de sua forma.

Esse padrão psicológico de Victor (egocêntrico e presunçoso), juntamente com a falta de amor, solidariedade, compaixão, caridade e tolerância despendidas à Criatura, são a explicação mais fidedigna da dinâmica interpessoal predominante atualmente em nosso planeta, com a maioria das pessoas.

Espantoso (e ao mesmo tempo muito revelador da alma humana) como o próprio Victor, retrospectivamente, admite os seus erros ao usar a alquimia para conseguir dar vida a um corpo inerte (“Não vou levar você, Capitão Walton, despreparado e entusiasta como eu fui, para a destruição e para a infalível desgraça“). E imputa sua falha de discernimento e escolha à “falta de uma boa orientação que o conduzisse ao verdadeiro conhecimento científico”. Ou seja, acaba por colocar a culpa de seus fracassos em outros, eximindo-se da responsabilidade das decisões somente por ele mesmo tomadas. E em atitude corolária e subsequente, não usa do mesmo raciocínio para compreender a sua culpa e responsabilidade no infortúnio e na dor de sua criatura, após os seus próprios atos de rejeição e afastamento para com ela.

Uma outra passagem denota ainda outros defeitos morais: “Sempre me perguntava de onde viria o princípio da vida. Era uma questão audaciosa, que sempre fora considerada um mistério; no entanto, quantas coisas estaríamos prestes a compreender, se a covardia ou a indiferença não freassem as nossas investigações.” Quantos, antes e após Victor, já confundiram humildade e respeito com covardia e indiferença? Por pura pretensão e arrogância?
Em um instante de lucidez, Victor parece compreender toda a extensão de seus erros, e até mesmo demonstra grande capacidade para sintetizar o aprendizado, quando afirma sobre seu esforço durante a construção da Criatura: “Queria, por assim dizer, procrastinar tudo o que se relacionasse com os meus sentimentos de afeição, até que fosse atingido o grande objetivo que devorava todos os hábitos da minha natureza. No entanto, um ser humano perfeito deveria sempre conservar a calma e a serenidade de espírito e nunca permitir que a paixão ou um desejo transitório perturbe a sua tranquilidade. Não acho que a busca do conhecimento constitua exceção à essa regra. Se o estudo a que nos dedicamos tende a enfraquecer as nossas afeições e a destruir nosso gosto por esses prazeres simples em que nenhuma imperfeição pode misturar-se, então tal estudo é decerto ilegítimo, ou seja, inadequado à mente humana. Se essa regra fosse sempre observada, se ninguém permitisse que a busca de um objetivo, fosse ele qual fosse, interferisse na tranquilidade de seus afetos domésticos, a Grécia não teria sido reduzida a escravidão… e os impérios do México e do Peru não teriam sido destruídos.”

Em apenas um momento, após a tentativa de reconciliação por parte da Criatura, Victor estremece e tem um fugaz “insight” sobre a miserável vida na qual deixou sua criação. Mas como dito, não durou mais do que alguns instantes, tendo ele, Victor, prontamente retornado ao estado mental de ódio e repulsa que nutria pela Criatura.

Por todos estes fatos aqui discutidos, e mais inúmeros outros os quais somente a leitura completa do livro poderia suscitar, está claro como uma obra literária que de forma alguma seria considerada espiritualista ou mesmo moralista, apresenta elementos abundantes suscetíveis de serem estudados e abordados com o objetivo do enriquecimento intelectual, cultural e moral de qualquer um.

Um conselho final: da próxima vez que for ler um livro, escolha um daqueles cuja narrativa venceu a força destruidora do tempo e as divergências ideológicas da humanidade. Escolha um livro que tenha a potencial capacidade de atingir profundamente sua mente e seu espírito. Pois “Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.” (Mário Quintana).

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