Trabalha como se vivesses para sempre;

ama como se fosses morrer hoje.

Sêneca

 

O autor da epígrafe foi contemporâneo de Jesus, filósofo romano que legou à posteridade, inobstante seu estoicismo e materialismo, inúmeros ensinamentos lapidares, como este: não é da morte que temos medo, mas de pensar nela.

 

Ainda assim, e talvez por isso mesmo, os últimos meses propiciaram à humanidade esse aprendizado, compulsório, necessário e inevitável, ao colocá-la repetidamente perante a única verdade infalível da vida.

 

Súbita e relutantemente, todas as nações, ricas e pobres, grandes e pequenas, avançadas e atrasadas, resignaram-se, penosamente, à existência de uma força que lhes superava, com folga, os recursos de toda ordem de que pudessem dispor. Assim, homens e mulheres, anônimos ou famosos, viram-se submetidos a um ditador invisível, tão pequeno que cem mil deles não somariam um centímetro, sendo cada um, de per si, nada mais que um aglomerado de proteínas a meio caminho entre a matéria inanimada e a vida, já que a ciência terrena ainda não conseguiu definir de que lado esse ditador está.

 

Compensando a dimensão pela quantidade, com o relevante auxílio da desídia humana, esse ser protovivente afetou diretamente a vida de cem milhões de pessoas no mundo, sendo mais de dez milhões em nosso país, que supera 200 mil mortes, significativa parcela dos dois milhões de vítimas fatais no planeta inteiro.

 

Esta contabilidade é sinistra, porém suficientemente reveladora da proximidade de todos nós a essa senhora cruenta, temida e aterradora para a maioria absoluta das pessoas, sendo virtualmente impossível encontrar alguém que não tenha perdido algum parente, amigo ou conhecido. Cumpre, portanto, encarar essa dama implacável, com muito respeito e nenhum temor, apesar da imensa dificuldade que essa postura carrega.

 

O enfrentamento pode iniciar-se com a constatação de que o temor da morte e seus corolários consiste em um fenômeno exclusivo do ser humano, ainda que a totalidade da flora e da fauna dela guarde a repulsa inconsciente, ditada pelo instinto de conservação. O espírito encarnado, emancipado em sua capacidade decisória, precisa compreender, no limite de seu discernimento, esse mecanismo inefável de renovação e recomeço.

 

O livre-arbítrio, dádiva suprema do Pai Eterno à criatura de evolução à condução da própria existência material, constitui atributo indispensável, e também irrenunciável, ao correto entendimento dos eventos capitais de sua trajetória de espírito imortal. 

 

O Criador detém a bondade infinita, nenhum de seus atos e suas disposições poderá ser menos que perfeito, terá sempre a finalidade, invariavelmente afirmativa, da emanação de seu amor imensurável a cada um de seus filhos. O abandono da veste carnal deve obedecer a esse ditame de utilidade, necessidade e plena adequação ao patamar vivencial de cada ser, a cada momento, assim evidenciando a vontade divina de insuperável misericórdia.

 

Fica assim demonstrada a validade do ditado popular, tão reiterado, de que a morte não busca ninguém na véspera, pois acontece, quase sempre, no instante adrede previsto, com as exceções provocadas pelos desacertos humanos, prontamente corrigidos pelo planejamento amorosamente acordado pelos espíritos avançados. 

 

A aceitação raciocinada da decisão superior ao entendimento terreno consagra a vereda indispensável e inevitável da morte como o desaparecimento material, sempre presente e próxima, que, infalível, também envolverá, a seu tempo, a totalidade da vida neste mundo.

 

O Espiritismo conduz o crente sincero na insubstituível escalada de conhecimento, mirando a sabedoria indefectível para a perfeita valoração de sua postura como indivíduo, sujeito aos acontecimentos da natureza material e partícipe influente da infindável maratona da evolução espiritual.

 

O ensinamento religioso 

 

A origem das religiões reside na necessidade irrefreável de o ser humano entender o que lhe parece inexplicável, situando-se a morte no topo dessa robusta lista de mistérios. Assim, pouco conhecimento, ciência primitiva e raciocínio incipiente resultavam em amedrontada e imutável reverência, ponto de partida para o inelutável apelo ao sobrenatural, passando pela crença supersticiosa até a aceitação temerosa da explicação religiosa, precária, dogmática, mas suficiente para o estágio evolutivo da população beneficiada.

 

A religião experimentou desenvolvimento e diversificação segundo o anelo crescente de resposta mais satisfatória, desembocando em grande multiplicidade de teorias e conceitos, alguns próximos do ensinamento espírita, outros bastante apartados. É enriquecedora a visita ao entendimento de algumas das principais religiões, mormente sobre uma temática tão recorrente quanto inconclusa, que é a morte do aparelho material, em termos de novos conhecimentos e também no cotejo com as convicções advindas da codificação espírita.

 

Na prática, o verdadeiro alvo é estabelecer o que acontece após o falecimento terreno, doutrina em que, inicialmente, todas as religiões estão conformes já que nenhuma nega a continuidade do ser, o que equivaleria a advogar a finitude da criatura, entronizando o materialismo radical, que é repudiado por todas as crenças religiosas.

 

Portanto, parece consensual que a vida continua de algum modo. Aí começam as diferenças, as dissensões, os embates e os entreveros entre as denominações confessionais.

 

O Catolicismo é o início natural da comparação respeitosa dos vários destinos preconizados para a criatura aliviada da vida terrena, seita majoritária de 1,3 bilhões de crentes. Denegando a reencarnação, à unitária vida material defronta-se a alma, sobrevivente, enfim, com três caminhos ditados, inexoravelmente, pelo seu comportamento terreno: o céu, onde usufruirá as benesses eternas, sob aparente ócio contemplativo; o inferno, paragem de tormentos inauditos e intermináveis; e o purgatório, onde a esperança subsiste ao preço de expurgo sacrificial, pelo menos para quem o demandou a partir de 1274, quando uma decisão conciliar o admitiu.

 

Todos os seres, felizes ou apenados, ambos perpétuos, devem aguardar o julgamento final, quando Jesus, retornado enfim, comandará a destinação final, novamente eterna, de todos os filhos do Pai Maior, sendo razoável esperar que o céu e o inferno sejam ratificados para seus habitantes, a que se somará a redenção ou a perdição dos exilados no purgatório.

 

O Protestantismo é seguido por 900 milhões de pessoas, e suas principais denominações endossam o entendimento católico de que o falecido deve aguardar o juízo final, na segunda vinda de Jesus, porém minimizam a participação humana na opção pelo paraíso ou pela geena, pois o fator decisório é a graça divina, que escolhe o destino de cada um. O homem pode, no máximo, agradar a divindade, com seu comportamento correto, para que a sua boa vontade seja recompensada. Deste modo, o livre-arbítrio parece exclusividade divina.

 

As diversas igrejas divergem quanto à situação do ser enquanto aguarda o julgamento, definindo o Luteranismo que a alma cai em sono ininterrupto, enquanto o Calvinismo e o Anglicanismo não estabelecem claramente esse período. Concordam, porém, que, no final dos tempos, haverá a ressurreição dos corpos físicos, pouco importando que a veste material esteja desintegrada na natureza.

 

Há ainda incontáveis denominações minoritárias em relação às citadas, como a Assembleia de Deus, Testemunhas de Jeová e Mórmons, que propugnam cenário similar, com a ressurreição de todos que já viveram no planeta, sob o julgamento de Jesus, advogando, cada uma, que os seus adeptos certamente terão preferência na salvação.

 

Depois do Cristianismo, a segunda religião em fiéis é o Islamismo, que interpreta a continuidade da vida de modo similar ao Catolicismo, com a submissão do ser ao julgamento divino de Alá, que, baseando-se em seu procedimento terreno, o enviará ao paraíso eterno ou ao inferno, temporário se houver arrependimento sincero e aceitação da verdade muçulmana; a recusa implicará a danação eterna. Na vida carnal, a criatura deve seguir regras rigorosas e minuciosas, que incluem proibições e rituais obrigatórios, mas prometem recompensa bastante palpável, pois inclui o usufruto eterno de 80.000 empregados e 72 consortes, promessa explicada como incentivo e compensação à necessária moderação na vida terrena.

 

No Judaísmo, a alma sempre existiu junto a Deus, na perfeição do paraíso, tomando um corpo material quando nasce na Terra. Então, ao morrer, essa alma pode retornar ao céu, caso não se tenha corrompido na senda carnal, ou experimentar uma temporada no inferno para se depurar das impurezas adquiridas por seus erros. 

 

O périplo pelas inumeráveis religiões humanas completa-se com as que admitem a reencarnação, como o Hinduísmo, embora as graves distorções ritualísticas e dogmáticas praticadas por seus numerosos seguidores, que, mesmo assim, procuram atingir o patamar evolutivo que interrompa o ciclo de retornos a este mundo. Mais próximas à nossa realidade, vicejam a Umbanda e o Candomblé, doutrinas espiritualistas que comungam objetivos meritórios com o Espiritismo, propugnando o exercício do bem irrestrito e incondicional, apesar de divergirem nos procedimentos exteriores, com nomenclatura, ritualismo e oferendas, que não lhes diminuem a relevância e a intenção elevada e denodada, nem sempre reconhecida.

 

O Espiritismo

 

A doutrina dos espíritos consolida-se em fundamentos similares aos das demais seitas espiritualistas, dentre outros, a reencarnação, a pluralidade de existências físicas, a imortalidade do espírito e a comunicação entre os seres na matéria e os libertos.

 

E vai além, explicitando a convivência constante entre encarnados e desencarnados, que exercem intenso compartilhamento e intercâmbio de atitudes, sentimentos, emoções e reações, de tal modo que carece de sentido concreto o limite entre a vida espiritual e a carnal, já que o universo material não passa de província importante, mas integrante menor do mundo verdadeiro, habitado pelos espíritos.

 

Em consequência, a morte perde o significado terrível que sempre a acompanhou na epopeia humana na Terra, reassumindo o seu valor verdadeiro como a passagem entre duas dimensões distintas em adensamento, conquanto coexistentes em espaço e tempo. 

 

 Este orbe, por enquanto provativo e expiatório, é oferecido aos espíritos imperfeitos como escola, por vezes severa, mas sempre generosa e enriquecedora, que proporciona a eliminação paulatina das máculas que a criatura acumulou em desatinos anteriores. O retorno à matéria, voluntário ou compulsório, implica o aproveitamento da oportunidade redentora no limite das possibilidades do ser, para que a partida, por esgotamento físico, enfermidade ou evento imponderável, seja sinceramente lamentada pelos que ficaram, mas represente também o desembarque feliz na espiritualidade do viajante vencedor das próprias deformidades morais.

 

A reencarnação e a consequente sucessão de vidas na matéria têm sofrido contumaz incompreensão de religiões que a recusam por considerá-la um castigo, pois equivaleria à reiteração do sofrimento terreno, sensação que o espírita bem instruído deve afastar, recepcionando-a como mecanismo da misericórdia de Deus, que jamais economizará oportunidades de reerguimento a nenhum de seus filhos.

 

De outra forma, refutar essa explicação piedosa seria imperdoável manifestação de ingratidão e mesmo de ignorância, porque o ser reencarnante vem à Terra em obediência a rigoroso e detalhado planejamento da nova existência, que, no mais das vezes, contou com a sua participação espontânea e livre. 

 

A reação do crente humilde e operoso, cônscio dos efetivos e perenes valores espirituais, ao término de cada experiência material, dos que o cercam ou de si mesmo, precisa expressar a sua compreensão e fé nos caminhos concedidos pelo Pai Eterno, ainda que sinta tristeza natural pela perda de alguém muito próximo, mesmo sob a repetição intensa dessa lacuna, até mesmo nas circunstâncias ora vividas por toda humanidade, submetida às perdas numerosas em cenário que a ninguém ocorreria prever.

 

O sentimento profundo de pesar não se confunde com falta de resignação, menos ainda com a revolta, até porque o ser encarnado desconhece o conjunto de fatores que motivam e conduzem a quase totalidade dos acontecimentos importantes da trajetória terrena de cada habitante deste mundo.

 

Se existe uma receita infalível para o desencarne no bem, ela consiste certamente em viver bem, exercitando, a cada momento, os mandamentos divinos de amor ilimitado a Deus e ao próximo, de modo que, ao abandonar o barco terrestre, o navegante do infinito se sinta menos materializado e mais elevado do que era ao embarcar.

 

É mister ratificar a veracidade da sabedoria imperecível do ensinamento de Confúcio:

 

Quando nasceste, ao teu redor, todos riam, só tu choravas; faze por viver de tal modo que, à hora de tua morte, todos chorem, só tu rias.

 

Vivendo a proximidade da morte

 

Costumam os irmãos de outras crenças questionar os espíritas quanto ao seu comportamento ante o falecimento de parentes, amigos, pessoas próximas, sugerindo, de modo irrefletido, às vezes rude ou debochado, que os praticantes da doutrina de Kardec estariam imunizados ante a dor da perda, com a suposta anestesia de sentimentos, vez que emprestariam à vida material pouco ou nenhum valor, podendo dela desprender-se sem maiores dificuldades.

 

Nada mais distante da realidade.

 

Para o espírita, o valor da vida é absoluto, sobrepõe-se aos demais bens terrenos de qualquer natureza, tangíveis ou não, cabendo, portanto, defendê-la a todo custo, pelo que se considera crime e, principalmente, afronta à lei divina, a interrupção da existência material sob qualquer pretexto, afinal essa decisão escapa ao livre-arbítrio humano, pois o Espiritismo ensina que nada é produto do acaso: uma gestação indesejada equivale a uma nova vida; o sofrimento, por enfermidade ou decrepitude, sempre intenta a educação do espírito; o suicídio equivale ao desperdício do dom divino; e a pena de morte rebaixa a suposta justiça ao nível do criminoso.

 

Todavia, a travessia terrena sempre chega a termo, em obediência à programação previamente estabelecida na espiritualidade, mas o comportamento do ser influi na gravidade das provações e expiações que enfrentará ao longo dos anos e também na própria duração de sua permanência no mundo; não lhe cabe abreviá-la, não pode estendê-la.

 

Cumpre aceitar o término da vida com serenidade e resignação, o que não implica represar a emoção, arrefecer o sentimento ou reduzir a dor. O espírita experimenta perda do ente querido como qualquer outro ser humano equilibrado e sensível, vivencia a ausência dorida de alguém que antes lhe compartilhava os dias com a mesma saudade e tristeza de qualquer pessoa dotada de emoções profundas e sinceras.

 

Reconhece, entretanto, que não lhe assiste a revolta ante o desígnio superior, que estabelece uma situação além de seu escrutínio, consolando-se com o exercício da resignação produtiva para manter a harmonia interior, que não se confunde com acomodação, fuga ou indiferença, a fim de continuar, ou retomar, as suas atividades cotidianas, repelindo o desânimo e a melancolia.

 

Entende que a separação é temporária, pois os espíritos se atraem por afinidade e nível moral. Além disso, suas características e virtudes não se dispersam pela transposição do limiar da espiritualidade, tampouco no retorno à matéria. O amor e a simpatia conquistados na seara carnal mostram-se imperdíveis, imunes à passagem do tempo e à distância física, que não conseguem enfraquecer os sentimentos adquiridos pela convivência comum e profícua.

 

Em síntese, o espírita esclarecido enfrenta o desencarne de pessoas amadas com a convicção de que não deve esmorecer. Então, por mais que dê vazão ao sentimento genuíno, precisa valorizar a própria vida para cumpri-la da melhor forma que puder, em respeito às perspectivas felizes de seus mentores.

 

Sabe que a morte é evento irrecorrível neste orbe, entretanto episódico e sempre consentâneo aos objetivos da espiritualidade superior, exceto sob a causalidade humana, pelo que sabe o ser encarnado que terá sempre a companhia protetora e amistosa dos irmãos do Alto, dispostos e capazes de ajudá-lo a superar toda sorte de vicissitude.

 

Tampouco ignora que a sua própria desencarnação poderá trazer-lhe dificuldades ou benesses, sofrimento ou recompensa, tristeza ou exultação, conforme as suas realizações positivas no mundo, independentemente de seus rótulos terrenos de cultura, nacionalidade, etnia, ideologia, posição social. Em outras palavras, nunca dependerá do que ele tiver, mas de quem ele for.

 

Ignora, entretanto, quando será resgatado pela misericórdia divina, certeza que somente possuirá no momento em que acontecer, porque data, hora e local lhes escapam aos sentidos, por mais que supostas evidências o indiquem. Precisa, portanto, estar sempre preparado, mantendo-se plenamente ataviado para a grande viagem, apresentando a consciência tranquila e o cabedal possível de realizações no bem. 

 

A perda de entes queridos

 

Se você não pensar além… 

 

 A música do Grupo Fé começa por palavras que já dizem tudo: a mente ultrapassa a sensação terrena do ser, põe-no em comunicação com a realidade eterna, na qual os valores são positivos e absolutos, em contraponto definitivo à relatividade dos eventos materiais.

 

Não se desvalorizam, nesta cena grandiosa, os sentimentos humanos, que governam as decisões no âmbito terreno; ao contrário, fica estabelecida a sua cabal perenidade, com suas consequências duradouras a acompanhar o seu agente pelas idas e vindas nas duas esferas da espiritualidade. Porém, não se pode mais desconhecer a clareza meridiana de seus efeitos benéficos e elastecedores da consciência, pois o ser passa a enxergar-se protagonista da aventura inacabável de percorrer o universo ofertado pelo Pai Maior, instruindo-se incessantemente em direção à perfeição.

 

Desse modo, continua a partida daqueles a quem amou no mundo a lhe atingir o íntimo mais profundo, mas não acresce à sua tristeza genuína a eclosão do arroubo desesperançado, característico da perda irrecuperável, na verdade substituída pela certeza do afastamento temporário.

 

Não vai entender nem saber de onde vem.   

 

Perguntando-se com sinceridade sobre a razão dos sucessos que o afetam, deve interpretar a consolação soprada pela espiritualidade, que lhe amplia o discernimento interior, permitindo-lhe a compreensão resignada dos objetivos superiores, sempre piedosos, mirantes infalíveis do bem maior e indispensável de todas as criaturas.

 

Aceitará, mais confiante, que a duração de cada etapa terrena terá a precisão necessária ao progresso do indivíduo, como a recompensa por sua graduação na escola oferecida ou o interregno antes evitável do desaproveitamento. A lógica irrepreensível se impõe: o espírito aprovado nos embates da existência material gozará o relaxamento suficiente à preparação de estágio moralmente mais elevado, e o fracassado examinará seus erros para não os repetir na oportunidade renovada.

 

O transtorno no rosto da mãe, pranteando o filhinho sem vida.  

 

O desaparecimento físico é sempre dramático quando atinge pessoas queridas e próximas, gerando lembranças intensas e tristes ao se olhar o berço vazio, os brinquedos abandonados, a cadeira preferida do pai forte e generoso, os chinelos prediletos da mãe carinhosa e protetora, a metade do leito agora intocada. Mas, com a fé segura e refletida nos desígnios superiores, a sensação de dor ameniza-se pouco a pouco, cedendo espaço para a saudade tolerável, esperançosa, crente no reencontro futuro, em situação melhorada, com a certeza de que o sentimento recíproco perseverará nos dois campos da espiritualidade.

 

O transtorno melancólico e incapacitante dará lugar à serenidade construtiva e poderosa.

 

Atribuindo a Deus toda culpa, do fracasso e da perda sofrida.

 

A letra da música prossegue o seu chamado à responsabilidade terrena, pois é crucial não confundir a admissão da vontade divina, sobrepondo-se à humana, com a ingrata transferência de culpa para o Criador e seus mensageiros de luz, quando esse lastro não é aplicável à desencarnação, exceto se houver a interferência deletéria de seres encarnados. Desse modo, nunca será atribuível aos veneráveis condutores da humanidade.

 

O ser humano persiste no erro grotesco e imperdoável de se julgar isento de qualquer envolvimento em sua vinda à Terra; a frase costumeira é tão simples quanto imprópria e inaceitável: eu não pedi para nascer.

 

Para os que não compreendem ou recusam a Doutrina Espírita, tal afirmação, por vezes expressa como manifestação de suposta humildade, demonstra desconhecimento, quase pleno, da excelsa natureza da divindade, que é perfeita em todas as virtudes e jamais trataria as suas criaturas como títeres predestinados unicamente à consecução de sua vontade caprichosa, sem preocupação com a felicidade e a evolução de cada ser, que sempre será a sua intenção primordial.

 

O espírita instruído, eterno estudioso, não pode servir-se dessa posição atenuante, pois tem consciência de sua condição de filho amado, fagulha emanada da chama universal e destinada à infinitude, sabendo, por conseguinte, que nada acontece ao acaso, pois Deus não conhece o desperdício de nenhum recurso, dom ou riqueza, menos ainda da vida de um de seus rebentos. Sabe também que, como espírito alçado à categoria hominal, adquiriu a capacidade imperdível e irrenunciável de escolher os caminhos que deseja trilhar.

 

Assim, reconhece que participou efetivamente da programação do estágio carnal, quando, espírito liberto, examinou seus erros e acertos na vivência anterior e concordou com os eventos probatórios e expiatórios que o acometeriam na existência seguinte, o que não implica, de modo algum, qualquer arremedo de predestinação: permanece intocável a sua decisão de aproveitar ou descartar as oportunidades de aprendizado e elevação.

 

Não seria excessivo afirmar que a liberdade é um dos maiores bens que o Criador concedeu aos espíritos, cumprindo-lhes o esforço de exercê-la no limite de seu discernimento e de respeito ao próximo.

 

Pois a lei do progresso inspirada no amor, por capricho não traria dor.

 

O Espiritismo manifesta, reiterada e inequivocamente, a indispensável convicção de que Deus não adere ao julgamento humano, que lhe concede o poder insuperável, mas não o isenta de algumas, ou muitas, características de suas criaturas, necessariamente incompletas. Admite-o perfeito, porém submete-o às vicissitudes da intempestividade, da vaidade, da ira, até mesmo da vingança. Considera-o senhor do universo, embora carente de desagravo, de reparação, de bajulação.

 

O antropomorfismo foi importante em épocas transatas, quando populações primitivas eram coagidas a comportamento razoável pelo temor de uma reação punitiva de um ser muito poderoso, que as poderia aniquilar. Esse conceito já cumpriu a sua finalidade, ultrapassado pela própria evolução da humanidade, que aprendeu a respeitar e amar aquele que tudo lhe dá, sem medo, acreditando em suas disposições como a criança recepciona a orientação dos mais velhos, ainda que nem sempre alcance o seu objetivo.

 

Na Terra, o ser encarnado ainda reage, no mais das vezes, de modo espiritualmente infantil, mas já reúne condições de admitir a benignidade dos eventos que lhe escapam à decisão, embora muitas vezes não lhes atine a intenção superior.

 

O abandono da veste material se encaixa perfeitamente nessa situação, em que a dor dos que ficam, por real e imensurável que seja, não deve ofuscar a aceitação resignada da conveniência absoluta dessa partida. Ressalvando-se a precipitada intervenção humana, o desencarne obedecerá, invariavelmente, à planificação maior, que estabeleceu a estrita duração da existência carnal em função dos acontecimentos que propiciariam o aprendizado e a expiação buscados naquela travessia terrena.

 

Que não se identifique nenhuma alusão, mesmo simbólica, às parcas, semideusas idealizadas pelos gregos e romanos, que teciam o fio da vida e o cortavam a seu arbítrio incontestável, alegórica submissão ao aparente fatalismo da existência mortal. A nenhum espírito, por mais avançado que se mostre, assiste esse poder discricionário, pois a espiritualidade superior observa, amorosamente, as conquistas e as desventuras do irmão na matéria, colaborando para que os eventos cruciais ocorram, de fato, nos momentos aprazados.

 

Portanto, o passamento representa a completude da estada temporária no orbe, efêmera perante a eternidade, variando, conforme o esforço de aperfeiçoamento de cada viajor, do laurel, para a vitória sobre si mesmo, ao revés vexado, que demandará a iteração dos ensinamentos mal assimilados.

 

Assim, o ambiente de dor profunda e realista é amenizado pela certeza de que, em vez do acaso insensível e cruel, a partida reflete o término da experiência previamente ajustada para as necessidades de cada um, ainda que raramente se possam explicitar essas disposições ao entendimento terreno.

 

As circunstâncias específicas de cada situação não podem dificultar essa compreensão resignada, resultante da admissão da bondade suprema do Criador, que conhece a necessidade de cada criatura melhor do que ela própria seria capaz.

 

Apesar do sofrimento inevitável, a cena humanamente aceitável consiste na partida serena, em idade avançada, no leito cercado de parentes e amigos entristecidos, mas confiantes na sabedoria divina que permitiu ao moribundo o gozo de uma vida longa e superficialmente feliz, nada importando a ação evolutiva dela resultante. Prepondera o consenso, não mencionado, de que a hora chegou, nada, pois, se podendo fazer, ainda que a enfermidade vitime o irmão provecto com a dor e a limitação física consequentes, mesmo que a mente exiba a depreciação irreversível. Não remanesce dúvida sobre o cumprimento da missão terrena que teria trazido o ser a este mundo, porquanto o raciocínio primário enxerga apenas a duração da vida e os seus aparentes sucessos.

 

O cenário verdadeiro pode ser esse mesmo, ou representar o descenso terreno do espírito vencido em sua ambição justificável de progresso, por se deixar levar pelas facilidades da vida materialmente folgada, em esquecimento voluntário das promessas de trabalho dedicado à evolução espiritual. A consequência inelutável será a assistência às novas aulas na escola terrena, em condições mais severas. 

 

Atingindo, porém, o irmão na plenitude do vigor físico, a morte provoca a lamentação ante o aparente desperdício de uma existência que ainda teria muito a conquistar, caracterizada pela boa conduta de quem muito poderia contribuir à sociedade, submetida, entretanto, à interrupção intempestiva, derruindo planos e esperanças. Antes de vislumbrar qualquer deslize ou mesmo injustiça na deliberação superior, precisa o ser encarnado, penalizado por sofrimento e compaixão, contemplar essa partida como a graduação de mais um aluno na escola material, que a deixará por superar decisivamente as lições oferecidas e de que necessitava. O espírito deseja liberar-se para encarar estudos e experiências mais elevados.

 

Todavia, se o irmão, em condição física similar, não exibiu qualidades apreciáveis em sua vida, não caberá a sensação de alívio aos encarnados sobreviventes, porque a metáfora do estudante vale também para o jubilado, que esgotou o período letivo sem assimilar os ensinamentos imprescindíveis. Terá que voltar à escola e vivenciar condições mais exigentes e ingratas, sendo, portanto, merecedor de compreensão e compaixão caridosa. A lei terrena é bem intencionada, mas falha, posto que humana; tem fragilidades inimputáveis à justiça divina, que não preconiza a retaliação, ao contrário, persegue sempre o melhor benefício também ao infrator.

 

Resta a você reconsiderar que a justiça divina jamais falhará.

 

Ao ser encarnado, ainda que profundo conhecedor das verdades espirituais, persistem situações extremas que lhe desafiam o discernimento, exigindo-lhe esforço adicional de compreensão e resignação, especialmente quando a nova geração está envolvida com o sofrimento, por vezes, continuado, que alcança a criança e a faz sucumbir. 

 

A perda de entes queridos em tenra idade, no viço da infância feliz e promissora, reveste-se de dor inimaginável a flagelar longamente os pais e parentes que compartilharam os poucos anos daquela vida iniciante, restando inevitável a indagação quanto à necessidade e ao objetivo de se interromper a existência incipiente. Mais uma vez, é mister convir que a justiça do Pai é perfeita como tudo que a sabedoria divina endereça à humanidade, não pode, portanto, errar.  

 

Sabe o espírita que o pequeno ser que partiu não estava em sua primeira temporada terrena, experimentava uma edição da inumerável sequência de existências em vários mundos, e a presente interrupção pode responder à carência mais urgente àquele espírito imortal, qual seja a complementação de estada anterior encerrada antes do previsto ou vivenciar um estágio de curta duração, mas suficiente para as realizações programadas, certamente em nível de sublimidade não apreendido pelos encarnados. 

 

O conhecimento aprofundado das piedosas estipulações da espiritualidade não pretende inibir o incalculável pesar que acomete os que ficaram, mas pode ampará-los, durante os primeiros tempos, em consolação eficaz que evidencie a necessidade imperiosa de manter a vereda terrena em trabalho e dedicação ao bem para cumprir os supremos objetivos da encarnação, vivência indispensável à depuração do espírito imperfeito.

 

Não resta, portanto, espaço para o desfalecimento ou para a revolta dos que permanecem na lide material. 

 

Hoje o presente reflete o passado. 

 

A frase singela e curta reforça a convicção de que nada é deixado ao sabor do acaso, mas obedece a um criterioso planejamento na espiritualidade, no intervalo entre duas existências materiais, e considera os avanços e os fracassos do espírito nas experiências anteriores para projetar as provas e as expiações que acarretarão o progresso esperado.

 

A duração da vida terrena e o cenário de sua interrupção resultam dessa deliberação misericordiosa, que tem, via de regra, a participação do futuro reencarnante, ansioso por enfrentar as situações que lhe colocarão à prova o desejo infatigável de reformar a si mesmo.

 

A vida é preciosa e insubstituível, escapando ao arbítrio do ente terreno, porém sujeita-se à vontade soberana do Criador por meio da espiritualidade superior que lhe é próxima, e a grande obra consiste na oportunidade oferecida a toda criatura para que retornem à perfeição de que se afastaram.

 

O bem maior

 

A vida é o único valor absoluto na Terra, embora finita e renovável, porque não passa de mais uma etapa na epopeia interminável da imortalidade inerente à criatura divinamente emanada. Não poderia ser diferente, pois, à suprema perfeição, não caberia a criação que se extinguisse e desaparecesse.

 

Desse modo, é correto observar que nada se perde, tudo se transforma.

 

O átomo transforma-se em energia, que se condensa e volta a ser matéria; esta muda de estado, o líquido vaporiza-se e novamente se reagrupa em matéria tangível. O corpo orgânico se desfaz, seus componentes retornam à natureza para integrarem outras organizações materiais. 

 

O universo material consiste nessa soma de energia e matéria, que se aniquilam e retornam modificadas; entretanto, o espírito é superior a esse mecanismo de manutenção. Ele é imortal e imutável, por mais que se apequene na perversidade que lhe deforma o aspecto e a capacidade. O retorno à perfeição a todos aguarda.

 

A vida material é um passo importante nessa caminhada de reaproximação à divindade, cumprindo ao ser encarnado entender que a morte é apenas aparente, que lhe traz sofrimento porque agride aos sentimentos adquiridos na convivência e subverte o próprio instinto de conservação.

 

Na Terra, o sofrimento é intrínseco à travessia humana, deve ser vivido com sentimento profundo e dignidade. Deve-se enfrentar a perda de entes queridos com a tristeza que provoca, sem revolta; com resignação, sem rebeldia.

 

A separação é temporária, eles aguardam as pessoas queridas, ainda encarnadas, para o reencontro tão logo se torne possível e conveniente ao equilíbrio e progresso de todos.

 

Deus tudo provê. 

 

Epígrafes extraídas da música “Se Você Não Pensar Além”

Interpretação: Grupo Fé – CD: Trilhas de Libertação 

Autoria: Íris Paula Rocha – C. E. Fonte de Esperança – Brasília/DF 

 

 

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