Entrevista com o fundador

Quinze anos fazendo a sua parte

 Entrevista realizada por Giselle Afonso na ocasião dos 15 anos do Centro Espírita Paulo de Tarso (2005)

Célia e Eliphas Levi Fundadores do CEPT

Aos 56 anos, Eliphas Levi Garcez Maia  usufruia confortavelmente sua aposentadoria, recompensa dos longos anos de trabalho. Morando da QI 08 do Lago Norte, na casa que ele próprio construiu, estava na expectativa de sua segunda neta quando decidiu trocar uma vida de tranqüilidades por uma trajetória de muito trabalho e dedicação. No dia seis de maio de 1990, ele fundou, em sua casa, o primeiro – e até agora único – centro espírita do Lago Norte, que iniciou suas atividades visando a prática da caridade e o estudo do Evangelho. Agora, aos 71 anos, ( mais dois netos no currículo), com  centenas de famílias atendidas em suas necessidades físicas e espirituais e um prédio levantado só com doações, ele acredita que o trabalho do Centro Espírita Paulo de Tarso ainda é pouco. “Nós temos que viver lutando para atender o maior número possível de crianças que não têm expectativa de futuro”. Conheça um pouco mais sobre o “Seu Eliphas”,  fundador do CEPT.

 

 

  • Há 15 anos, o senhor realizou a primeira reunião do Centro Espírita Paulo de Tarso na sala de sua casa, com outras 17 pessoas. Hoje, coordena uma estrutura com mais de 15 salas, 40 voluntários e centenas de freqüentadores. O senhor imaginou que chegaria até aqui?

É evidente que a gente sempre sonha alto. E eu, particularmente, sempre fui um sonhador muito forte. E muitos destes sonhos foram concretizados. Esse prédio é uma prova disso. Até que em determinada época, alguém viu a construção do prédio e falou ‘Esse Seu Eliphas é um louco’, porque ele nunca acreditaria que eu teria condições de colocar em prática aquele sonho, que para ele era maluquice minha.

  • O senhor se considera um líder?

Olha, de alguma sorte sim, porque administrar uma casa sem guerra, sem briga e sem desentendimento, faz parte da liderança de quem o administra, correto?

  • Na reunião da Federação Espírita do Distrito Federal (FEDEF) em que decidiu fundar o Centro, o senhor estava sozinho. Qual foi a reação da sua família quando soube?

A minha família sempre esteve ao meu lado. A prova disso é que até hoje todos estão aqui, ninguém me deixou na mão. A única idéia que causou algum impacto foi quando eu disse que a gente ia abrir o Centro na nossa própria casa. Aí houve um impacto. Num primeiro momento, as pessoas acharam que centro espírita não podia ser fundado dentro de uma casa e eu tive que convencê-las que se não tínhamos outro espaço, tinha que ser lá. Acabaram concordando e a gente abriu para o grande público no dia 20 de agosto de 1990. Porque do dia 6 de maio, data oficial da inauguração do Centro, até agosto, nós fizemos reuniões restritas. Tínhamos reuniões de desobsessão, com um grupo pequeno de pessoas, e estávamos trabalhando e elaborando para reiniciarmos a casa com a evangelização da criança, campanha de assistência social, costura principalmente, e também com a tiragem de um jornal. Porque eu entendia que o Lago Norte tinha que tomar conhecimento das nossas atividades . Foi aí que nos veio a idéia de colocar o nome ‘Estrada de Damasco’, uma vez que o centro era de Paulo de Tarso, e abrimos para o público com o jornal já circulando no Lago Norte e todas as atividades montadas. Então o pessoal chegava, deixava as crianças, iam para a palestra e depois levavam seus filhos. Era muito bom. Chegamos a ter 100 pessoas na nossa casa acomodadas na varanda e em volta da piscina.

  • Quando saiu a primeira edição do Estrada de Damasco?

1990. 20 de agosto de 1990.

  • Quando o senhor levantou a mão naquela reunião e disse que fundaria o primeiro centro espírita do Lago Norte, o senhor tinha idéia do que tinha pela frente, do trabalho que teria?Tinha, porque eu já vivia dentro de centros espíritas há muitos anos e sempre estive trabalhando. Para você ter uma idéia, naquela época eu trabalhava na FEB (Federação Espírita Brasileira). Trabalhei lá seis anos na construção do prédio e, durante três anos, eu dirigi interinamente a FEB Brasília. Então eu acho que já tinha muita visão do movimento espírita. Tanto assim que tive uma grande decepção quando coloquei um anúncio no jornal convocando os espíritas para a fundação do centro, e só apareceram quatro. Os demais não eram espíritas, por incrível que pareça. Apareceram lá no dia só para fundar o centro. Tanto assim que a nossa tesoureira foi só no dia da eleição para aceitar o cargo e, até hoje, nunca mais voltou ao Paulo de Tarso.
  • O senhor já enfrentou duas pontes de safena, um tumor no cérebro e, mais recentemente, o derrame de sua esposa. Em nenhum momento pensou em desistir?

Claro que não. A enfermidade não é motivo para desistência, pelo contrário. Eu entendo que as dificuldades são pertinentes ao ser humano, uma vez que somos falíveis, já erramos quem sabe o quanto no passado. Nós não podemos nos intimidar com a enfermidade. Ela vai acontecer e a gente vai tentar superar, e é o que tem acontecido conosco. Nós não podemos fugir à regra.

  • O centro possui uma creche que atende às famílias carentes e também auxilia as crianças maiores a freqüentarem a Centro Educacional Allan Kardec. O senhor acredita que esses trabalhos eximem o Estado de cumprir com suas obrigações com a educação básica?

Eu acho que é muito pouco ainda pela necessidade da nossa sociedade. Nós temos que viver lutando para atender o maior número possível de crianças que não têm expectativa de futuro. Entendemos que a Creche é uma grande porta que abrimos para as mães e os pais dessas crianças, mas principalmente para os trabalhadores da casa que precisam ter serviço para justificar uma existência saudável, às vezes uma existência rica, ou até mesmo uma existência com enfermidades. Porque mesmo na enfermidade o trabalho gera saúde nas pessoas. Nós poderíamos ter aqui, quem sabe, até 100 crianças, porque espaço físico nós temos, mas sem colaboradores fica impossível chegar a esse número.

  • Mas o senhor acredita que o Centro ocupa uma lacuna deixada pelo governo, ao falhar na promoção de políticas públicas que garantam creches e escolas de qualidade para toda a população?

Eu entendo que eu também sou governo. Entendo que todos nós somos governo, independentemente de estarmos ocupando ou não postos na área governamental. E entendo que o governo por si só nunca terá capacidade de resolver todos os problemas da sociedade. E nós, como cidadãos, também fazemos parte desse governo e somos obrigados a dar nosso quinhão e a ajudar o tanto quanto possível. Até porque, vemos que as poucas ações feitas pelo governo nem sempre têm saído a contento Às vezes os maus administradores e os maus funcionários vão pra là em troca do dinheiro e acabam não cuidando das suas tarefas. Pois para se  fazer um bom trabalho, a primeira coisa é amar o que faz, e as pessoas que o fazem só pelo dinheiro, não fazem um trabalho bom. E eu entendo que a doutrina espírita nos abre essa porta para ajudar a sociedade, que é um dever nosso também como cidadão.

  • Uma das atividades que o senhor ressaltada grande valor no Centro é a envangelização infanto-juvenil. Qual é, na sua opinião, a importância do ensino religioso nos dias atuais?

A vida sem a religião é muito fria, muito hostil. É uma vida sem aquelas condições que acalentam o coração, que iluminam a alma. A religião é que traz para o cidadão um outro conceito de viver, principalmente o espírita, que é bem diferente de outras religiões, pois nos mostra a vida pregressa, a vida atual e nos indica a vida futura. E nos mostra que só o bem pode superar o mal que existe no mundo. O mundo tem que ser zelado e cuidado para que um dia ele se transforme numa sociedade boa. Se as pessoas não buscarem esses instrumentos, a sociedade vai custar demais a se tornar aquilo que o Cristo desejou: um planeta de melhor qualidade de vida.

  • Essa busca por uma religião deve ser feita na vida adulta, ou o ensino deve começar na infância?

Eu entendo que tudo o que é bom para o pai e para a mãe, é bom também para os filhos. Os pais têm que dar o direcionamento que acharem certo para si e para os seus filhos. A evangelização infanto-juvenil é o passo maior do cidadão que entendeu a religião como um instrumento bom e útil para os seus filhos, porque assim o é para ele também. Por isso eu acho que a evangelização é o melhor trabalho que a casa pode fazer, porque nós estamos preparando homens e mulheres que amanhã poderão ocupar postos públicos e mudar o direcionamento, também, do nosso país.

  • Quais são os seus planos para o futuro?

Não tenho outro plano a não ser trabalhar (risos). Fazer crescer a nossa casa, o mais que pudermos. Meu maior sonho seria poder construir um colégio aqui nessa área, um colégio em que a sua receita pudesse ajudar a suprir as despesas do Centro. Então o que ultrapassasse as despesas com professores, empregos e etc, cobriria uma parcela boa das atividades que nós gostaríamos de ter aqui na casa. ?

  • O senhor acredita que houve uma boa receptividade por parte da comunidade do Lago Norte em relação à fundação do Centro?

Eu acredito que sim, porque nós somos muito bem vistos pela sociedade. Nunca tivemos rejeição, sempre fomos bem aceitos e já fomos citados como exemplo até por outras entidades religiosas pelo trabalhdo que fazemos. Porque a nossa preocupação não é transformar as pessoas em espíritas, mas mostrar a elas que existe uma outra filosofia de vida que pode preencher o vazio em seu coração. Isso sem ofensa a nenhuma religião,  pois entendemos que cada um vive de acordo com o seu momento, e as religiões  existem para ajudar as pessoas que dela participam. E a nossa também é assim. O que precisamos fazer é divulgar nosso trabalho, e isso o Centro faz. Razão pela qual a casa vem crescendo gradativamente, e as pessoas vão fixando-se em nossa casa e dando o seu quinhão.  Isso é muito bom, e prova que a sociedade está respondendo ao nosso trabalho, sem constrangimento. Pois nós não insistimos para ninguém freqüentar a casa, apenas orientamos as pessoas que batem a nossa porta. E elas ficam porque gostam de nossa metodologia, nossos conceitos doutrinários, que são baseados em Jesus, e de nossa seriedade.

  • O que o senhor espera do futuro?

Para o mundo melhorar, nós só precisamos investir no ser humano. Porque não adianta só falar, nós precisamos, como diz a gíria, pôr a mão na massa. Então para que o mundo melhore, cada um tem que fazer sua parte, colaborar e direcionar os seus objetivos para a melhoria da sociedade. Toda pessoa pode fazer muito pelo seu próximo; toda pessoa pode ter uma palavra de conforto, de carinho, de amor, uma palavra de perdão. Tudo isso vai fazer com que o mundo se torne mais brando, mais fraterno e mais amigo. Você vê que, na nossa comunidade, essa colocação tem dado excelentes resultados. Mesmo a sociedade que a gente chama de “profana”, que não se vincula a nenhuma crença, está mudando suas diretrizes. Já está falando em cooperação, em solidariedade, falando em união das pessoas e fazendo trabalhos como fez o Betinho, como fez nosso grande corredor Ayrton Senna, e tantos outros que promovem atividades assistenciais. Emobra ainda haja quem o faça com outros fins, infelizmente. Mas, já é um passo adiante, pois o quê a pessoa fizer de bom, ficará para o futuro. Muitas escolas hoje já funcionam como ONGs, sem interesses financeiros. Isso é muito importante. E os centros espíritas estão espalhados pelo Brasil inteiro,hoje devemos ter uns 7 mil espalhados em todo o país. E eles trabalham todos em cima dessa filosofia, e nós acreditamos que vamos chegar lá um dia.

 

× Como posso te ajudar?

Política de Privacidade — Garantir a confidencialidade dos dados pessoais dos usuários é de alta importância para nós, todas as informações pessoais relativas a membros, assinantes, clientes ou visitantes que utilizam nossos sistemas serão tratadas em concordância com a Lei da Proteção de Dados Pessoais de 26 de Outubro de 1998 (Lei n.º 67/98). As informações pessoais recolhidas podem incluir nome, e-mail, telefone, endereço, data de nascimento e/ou outros. O uso de nossos sistemas pressupõe a aceitação deste Acordo de Privacidade. Reservamos o direito de alterar este acordo sem aviso prévio, por isso recomendamos que você verifique nossa política de privacidade regularmente para manter-se atualizado(a). Anúncios — Assim como outros sites, coletamos e utilizamos informações contidas em anúncios, como seu endereço de IP (Internet Protocol), seu ISP (Internet Service Provider), o navegador utilizado nas visitas a nossos sites (Chrome/Safari/Firefox), o tempo de visita e quais páginas foram visitadas. Sites de Clientes — Possuímos ligação direta com os sites de nossos clientes, os quais podem conter informações/ferramentas úteis para seus visitantes. Nossa política de privacidade não se aplica a sites de clientes, caso visite outro site a partir do nosso, deverá ler sua própria politica de privacidade. Não nos responsabilizamos pela política de privacidade ou conteúdo presente nesses sites. Para maiores informações, entre em contato conosco.