No livro Obreiros da Vida Eterna, psicografado por Chico Xavier e publicado em 1946, o espírito André Luiz nos relata episódios de desencarne, sendo que nossa abordagem será restrita à Dimas, conforme narrado nos capítulos 11 a 15. É sempre recomendável a leitura prévia o texto, pois aqui não nos preocupamos em trazer informações que podem adiantar elementos da narrativa, no sóbrio e surpreendente estilo do autor.

O grupo socorrista, do qual André Luiz faz parte, encontra-se na Casa Transitória Fabiano, instituição piedosa fundada por Fabiano de Cristo, antigo religioso do Rio de Janeiro, e localizada nas cercanias da crosta terrestre. Destina-se a socorros urgentes, assistindo aos recém desligados do plano carnal.

A manutenção dessa casa é de suma importância, pois raramente se encontram recém desencarnados em condições de atravessarem as zonas sombrias, logo após a morte física. Normalmente ocorre uma restauração gradual das energias interiores.  A grande particularidade desta casa é que se constitui de um asilo móvel, ainda que abrigando um considerável número de servidores em trabalho dos mais dignos e edificantes.

Antes de adentrarmos o caso de Dimas, alguns esclarecimentos gerais do mentor Jerônimo são importantes.

Nos casos descritos no livro, os espíritos próximos ao desencarne são levados, durante o sono, à Casa Transitória, para que se “habituem lentamente com a ideia de afastamento definitivo”, mas tal não acontece com todos, haja vista que inúmeras “reencarnações e desencarnações, de modo geral, obedecem simplesmente à lei”.

Importa esclarecer que instituições similares à Casa Transitória se encontram em inúmeros lugares no plano espiritual.

Temos aqui uma visão clara da lei divina. Todos os processos têm sentido e propósito. O Pai dotou a matéria de propriedades, e tais propriedades seguem curso próprio, que só é alterado pela ação de alguma vontade inteligente.

Uma árvore nasce na mata a partir da semente de outra, que caiu em solo fecundo, recebendo a bênção da luz e do calor de nossa estrela. Envelhece e se desmonta, devolvendo ao solo a matéria orgânica para que seja aproveitada a seu modo. Não há necessidade de interferência. Por outro lado, se há ensejo para o fabrico de uma mesa, uma vontade inteligente há que vislumbrá-la, promover o corte da árvore e demais procedimentos, até que o tronco se transforme no móvel doméstico.

Assim, a lei natural equilibra-se entre as propriedades inerentes à matéria, e a ação de vontades inteligentes que a transformam.

Do mesmo modo, a reencarnação obedece a uma lei material. Conjugando-se óvulo e espermatozoide no ventre materno – ou mesmo em laboratório, no caso da fertilização in vitro – temos o início de uma vida material e, portanto, a capacidade de conexão de um espírito a tal célula primordial[1]. Tal conexão poder-se-á dar pela atração de um espírito afim, ou por meio da ação inteligente de espíritos, como bem descrito por André Luiz na reencarnação de Segismundo, na obra Missionários da Luz, que já foi objeto de análise nesta revista, cuja leitura recomendamos (https://www.paulodetarso.org.br/a-reencarnacao-sob-a-perspectiva-espirita-o-caso-segismundo/ ).

Do mesmo modo, o desencarne segue seu curso. A vida demanda a organização física e o princípio vital[2]. Desse modo, a vida cessa quando as células se desorganizam, impedindo a ação eficiente do fluido vital, ou quando este último se esgota. Contudo, nada impede que tal desencarne receba auxílio da providência, orientando os processos, à luz de um alvitre maior.

Tais reflexões nos levam à questão seguinte: qual o critério da espiritualidade para promover tais ações? Jerônimo esclarece:

 

– Não se trata de prerrogativa injustificável, nem de compensações de favor. O fato revela ordenação de serviços e aproveitamento de valores. Se determinado colaborador demonstra qualidades valiosas no curso da obra, merecerá, sem dúvida, a consideração daqueles que a superintendem, examinando-se a extensão do trabalho futuro. No plano espiritual, portanto, muito grande é o carinho que se ministra ao servidor fiel, de modo a preservar-lhe o devotado espírito da ação maléfica dos elementos destruidores, com o desânimo e a carência de recursos estimulantes, permitindo-se, simultaneamente, que ele possa ir analisando a magnitude de nosso ministério na verdade e no bem, em face do universo infinito.

 

Os espíritos mais iluminados não agiriam por outro móvel que não a utilidade, e nem o fariam sem o correspondente mérito. O Pai não tem filhos favoritos, mas respeita nosso livre arbítrio. Àquele que se interessa pela lição, são ofertadas escolas mais avançadas. Conforme Jerônimo, “a lição do aluno atento e fiel deve interessar à classe inteira. Aos que fogem ao escólio divino, resta a necessidade do esforço de aprendizado, já que o mestre pode auxiliar – e os mestres da espiritualidade jamais nos abandonam, afinal, os sãos não precisam de médico[3] mas o aprendizado é individual.

Dimas era espírita e “desenvolveu faculdades mediúnicas apreciáveis, colocando-se a serviço dos necessitados e sofredores”, tendo uma vida repleta de renúncias.

Vemos aqui um irmão dotado de esclarecimentos acerca da vida futura, conforme ensinamentos do Espiritismo, e que teve uma vida de trabalho em prol do semelhante, oferecendo sacrifícios pessoais. Dito assim, seria um cenário perfeito, mas veremos que a questão é mais profunda.

A proximidade do desencarne, aliada ao conhecimento da vida futura, conferia grande liberdade ao espírito, ainda atrelado ao corpo decrépito. Tal lição vai ao encontro de incontáveis relatos de moribundos que travam conversas com familiares já desencarnados. Sem prejuízo da possibilidade de alucinações, é fato que, frequentemente, a visão é real, decorrente da sutileza do liame que ainda retém o espírito no corpo.

Tal fenômeno não se distancia do transe sonambúlico[4], decorrente da mesma liberdade do espírito em relação ao corpo, embora no sonâmbulo tal fenômeno ocorre sem que o corpo esteja em vias de extinção. Não se trata, tecnicamente, de uma mediunidade, pois o contato não se dá entre os planos, mas diretamente no plano espiritual.

A visita a Dimas é rápida, preparando-o para uma “sessão de esclarecimento” na Casa Transitória, preparando-o para a “libertação definitiva”.

Os espíritos se utilizaram do “lar coletivo de Adelaide” como ponto de apoio na crosta, descrição bastante comum na obra de André Luiz, embora esses pontos de apoio sejam minoria. Trata-se de uma instituição, o que reforça a importância da ação coletiva em detrimento das ações isoladas. No capítulo 3, Oração Coletiva, da obra Nosso Lar, André Luiz narra o efeito da prece coletiva realizada naquela cidade diariamente, envolvendo todos os habitantes:

 

“Terminada a sublime oração, regressei ao aposento de enfermo amparado pelo amigo que me atendia de perto. Entretanto, não era mais o doente grave de horas antes. A primeira prece coletiva, em Nosso Lar, operara em mim completa transformação. Conforme inesperado envolvia-me a alma. Pela primeira vez, depois de anos consecutivos de sofrimento, o pobre coração, saudoso e atormentado, à maneira de cálice muito vazio, encera-se de novo das gotas generosas do licor da esperança.”

 

A despeito do natural desligamento corpo/espírito, e do silêncio que cerca o moribundo, facilitando a condução para a jornada no plano espiritual, alguns espíritos ficam hesitantes e enfraquecidos, e mesmo semi-inconscientes, carecendo do auxílio de passes magnéticos. Para a condução ao plano elevado, seria utilizada a energia de André Luiz e seus companheiros, bastando segurar as mãos dos futuros desencarnantes para que todos volitassem em conjunto.

Apesar da preparação, Dimas não tinha noção clara do que ocorria, encontrando-se “assombrado e inquieto”. Deixando os limites da atmosfera, Dimas perguntou: “– Que rio é este? Ah, tenho medo! Não posso atravessá-lo, não posso, não posso!…”. Perguntou ainda se estavam em Marte, quando na Casa Transitória.

Vemos aqui claramente que, embora Dimas tivesse contato com o plano espiritual, por meio da mediunidade, e conhecesse das realidades da vida espiritual, por meio da doutrina espírita, faltava-lhe algo, provavelmente fé e coragem, para enfrentar a transição. O conhecimento encontrava-se na mente, mas faltava algo ao coração.

A reunião na Casa Transitória foi breve, basicamente alertando Dimas e os demais acerca da proximidade da piora física e desencarne, além de “socorro magnético positivo”. No retorno, Dimas novamente mostrou confusão na compreensão do que havia ocorrido:

 

– Oh! Como foi maravilhoso meu sonho de agora! Vi-me à beira de rio caudaloso e brilhante, que atravessei com o auxílio de benfeitores invisíveis, chegando, em seguida, a grande casa, cheia de luz!

 

Por fim, chegamos ao momento do desencarne de Dimas, na manhã seguinte à mencionada excursão espiritual.

André Luiz nos fala, acerca do desencarne, que “não fora determinado dia exato, atingira-se o tempo próprio”. Tal assertiva traz aparente contradição com a resposta às questões 853 e 854 de O Livro dos Espíritos, que nos contam que a hora da morte é inevitável. Contudo, fazendo uma análise menos literal, sabemos que o momento da morte pode ser adiado, como o caso da irmã Albina, descrito também em Obreiros da Vida Eterna. Assim, utilizando a expressão de André Luiz, chegado o tempo próprio, a morte é inevitável, mas esse tempo não é marcado em dias e minutos.

Mas as considerações que seguem ampliam ainda mais a compreensão do fenômeno e sua oportunidade.

Indagado por André Luiz, Jerônimo esclareceu que Dimas não estava desencarnando em “ocasião adequada”, o que levou André Luiz a considerar seu próprio caso, descrito como suicídio inconsciente, conforme relatado na obra Nosso Lar. O suicídio inconsciente ou indireto caracteriza-se pela inexistência de vontade de morrer ou ação pensada que leve à morte, mas por condutas que acarretam o desgaste precoce do instrumento corpóreo, como o abuso de bebidas alcoólicas, o cultivo de mágoas e ressentimentos, a indiferença diante de cuidados necessários em determinadas circunstâncias.

Mas Jerônimo, de modo enfático informou que Dimas “não é suicida”. A existência corpórea de Dimas foi abreviada pelo constante sacrifício. Sem vantagens materiais, esforçou-se pelo aprimoramento intelectual, trabalhando desde cedo e, constituindo a própria família, permaneceu em esforço de subsistência, vivenciando todo tipo de privação, inclusive alimentar. A despeito disso, relata-nos Jerônimo:

 

Mesmo assim, encontrou recursos para dedicar-se aos que gemem e sofrem nos planos mais baixos que o dele. Recebendo a mediunidade, colocou-a a serviço do bem coletivo. Conviveu com os desalentados e aflitos de toda sorte. E porque seu espírito sensível encontrava prazer em ser útil e em razão dos necessitados guardarem raramente a noção do equilíbrio, sua existência converteu-se em refúgio de enfermos do corpo e da alma. Perdeu, quase integralmente, o conforto da vida social, privou-se de estudos edificantes que lhe poderiam prodigalizar mais amplas realizações ao idealismo de homem de bem e prejudicou as células físicas, no acúmulo de serviço obrigatório e acelerado na causa do sofrimento humano. Pelas vigílias compulsórias, noite a dentro, atenuou-se-lhe a resistência nervosa; pela inevitável irregularidade das refeições, distanciou-se da saúde harmoniosa do estômago; pelas perseguições gratuitas de que foi objeto, gastou fosfato excessivamente e, pelos choques reiterados com a dor alheia, que sempre lhe repercutiu amargamente no coração, alojou destruidoras vibrações no fígado, criando afecções morais que o incapacitaram para as funções regeneradoras do sangue. É verdade que não podemos louvar o trabalhador que perde qualquer órgão fundamental da vida física em atrito com as perturbações que companheiros encarnados criam e incentivam para si mesmos; no entanto, faz-se preciso considerar as circunstâncias em jogo.

 

Vê-se que Dimas teve inúmeros atenuantes para que sua vida tenha se abreviado, não podendo ser considerado suicida, mas o mentor novamente faz um esclarecimento que deve ser escutado por todos nós:

 

Dimas poderia receber, com naturalidade, semelhantes emissões destrutivas, mantendo-se na serenidade intangível do legítimo apóstolo do Evangelho. Todavia, não se organiza de um dia para outro o anteparo psíquico contra o bombardeio dos raios perturbadores da mente alheia, como não é fácil improvisar cais seguro ante o oceano em ressaca. – negritamos

 

Observa-se que Dimas poderia ter enfrentado as mesmas vicissitudes sem se contaminar, e sem comprometer o próprio físico.

Lembremos da lição de Emmanuel, de que o raio de luz penetra o pântano, mas não se contamina[5].

Pensemos no Cristo, nosso guia e modelo[6]. Quantas súplicas chegam a Jesus todos os dias? Quantos pedidos equivocados? Quantas mentes desequilibradas rogando por algo que vai piorar sua situação? E em sua passagem encarnada? Como lidar com a traição de Judas? Com a intransigência de Pedro? Com a descrença de Tomé? É necessário o equilíbrio do Messias para lidar com tudo isso.

Atentando-nos mais especificamente ao ponto de nosso trabalho, o fato é que o mundo é um lugar repleto de dificuldades, e que é possível enfrentá-las sem comprometer nossa saúde, mas é muito mais importante colocar-se a serviço do amor, ainda que de modo trôpego, pois sem dar os primeiros passos, não se chega ao final do caminho.

Não existindo propriamente um dia do juízo, é certo que o período final de vida é uma prestação de contas da existência. A despeito de Dimas não ter conseguido passar incólume pelas dificuldades, o fato é que conseguiu muito mais acertar que errar, muito mais ajudar que se prejudicar. Assim, voltando ao início do presente estudo, compreendemos a atuação da providência, por meio de seus emissários, em prol de Dimas, haja vista todos o mérito por vencer suas lutas, ainda que se modo imperfeito. Nos dizeres de Jerônimo, a visão divina jamais despreza minuciosas investigações sobre as causas…

Notamos que amigos desencarnados velavam por Jerônimo, inclusive “iluminada entidade”. Jerônimo ainda acrescentou que o desencarne dar-se-ia naquele dia, o que nos remete a reflexão anterior acerca do momento da morte. Chegado o momento, fixou-se o dia que, de resto, guarda estreita ligação com as possibilidades do corpo.

Aspecto importante é que Jerônimo não permitiu a reunião, ali, de amigos espirituais de Dimas, pois este não se encontrava “plenamente senhor das emoções”. Se estivesse, a reunião poderia ser realizada. Deliberou-se por proporcionar tal encontro quando da jornada à Casa Transitória, bem como no período de convalescença naquela instituição. Na Terra, não se faz grande festa ao lado do enfermo, mas quando este se mostra recuperado, o estreitamento das afeições se faz mais adequado.

O desequilíbrio verificado tem relação com as “algemas domésticas” do próprio Dimas, preocupado com o destino da família, e com isso enlaçando-se às inquietudes dos seus. Por certo preocupar-se com os familiares é algo salutar e mesmo um dever. Contudo, cumpre a todo encarnado confiar na providência mais que em si e, se já não está em condições de auxiliar materialmente a família, há que se aplicar à tão subestimada oração.

A preocupação exacerbada é traço de orgulho, – como se somente nós pudéssemos resolver determinada situação, e materialismo, – já que a maior preocupação não deve ser com as vicissitudes da matéria. Mais de 200 anos antes do nascimento de Jesus, a Bíblia, em Eclesiastes (3:1-2), já nos ensinava:

 

1 Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

2 Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

 

Retornando à cena doméstica, ao pé do médium, a esposa emitia “forças de retenção amorosa que prendiam o moribundo em vasto emaranhado de fios cinzentos”. A despeito de tais laços terem origem no amor devotado da esposa, também tinham espeque em seus medos que, ao fim e ao cabo, demonstram a mesma falta de fé já mencionada. Assim, prendiam o agonizante, ao invés de envolvê-lo em paz e carinho.

André Luiz narra, do ponto de vista espiritual, um fato bastante mencionado mesmo pelos materialistas, que alguns chamam de melhora da morte, como podemos ver em reportagem da BBC News Brasil[7], que relata a existência do termo em diversos idiomas e épocas:

 

Há termos de diferentes idiomas e épocas para descrever esse mesmo fenômeno, inexplicável até hoje para a Ciência: melhora da morte, o último adeus, a iluminação antes da morte (da era vitoriana no Reino Unido), a melhora do fim da vida, a visita da saúde, a melhora da despedida, o último uhul!, episódios de lucidez, a lucidez paradoxal, a lucidez terminal ou o último raio de Sol (do chinês 回光返照).

 

Conforme nos mostra André Luiz, os espíritos encarregados do desencarne de Dimas provocam melhoria no estado de saúde do doente, de modo que a esposa descansasse, afrouxando os feixes que prendiam Dimas, sem prejuízo de atuarem diretamente nela, modificando suas vibrações mentais. Assim, explica-se a chamada melhora da morte, sendo certo que isso não significa que sempre seja assim.

Nota-se ainda, a partir desse singelo exemplo, que a medicina materialista jamais encontrará explicação para diversos fenômenos, necessitando da complementação da visão espiritual.

Mas não foi bastante cuidar da esposa, pois a câmara estava “repleta de substâncias mentais torturantes”, vindas de outros familiares, também decorrentes de um amor sincero, mas distorcido. Foi necessário não só provocar a melhora, como também promover a divulgação desta, de modo que todos reduzissem a influenciação deletéria ao que desencarnaria em breve.

Observa-se franco esforço da espiritualidade para limpar o ambiente espiritual, facilitando o trabalho do desencarne. Uma vez que todos foram descansar, o “compartimento ficou solitário”, permitindo a atividade espiritual. Hipólito e Luciana “teceram uma rede fluídica de defesa, em torno do leito”, bloqueando as vibrações mentais inferiores.

Dando início aos passos finais, Jerônimo permitiu e estimulou uma última oração de Dimas, que recordou da mãe com profundo amor, sendo que, pouco depois, sua mãe, repleta de luz, adentrou no recinto, a quem foi confiado o espírito de Dimas.

Aproveitando o apoio materno, Hipólito e Luciana foram ao quarto da esposa, aplicando mais passes.

Com profundo conhecimento do corpo humano, e aplicando passes, Jerônimo deu início ao desligamento final de Dimas:

 

Ordenou Jerônimo que me conservasse vigilante, de mãos coladas à fronte do enfermo, passando, logo após, ao serviço complexo e silencioso de magnetização. Em primeiro lugar, insensibilizou inteiramente o vago, para facilitar o desligamento nas vísceras. A seguir, utilizando passes longitudinais, isolou todo o sistema nervoso simpático, neutralizando, mais tarde, as fibras inibidoras no cérebro.

 

No ato de cortar os fios, Jerônimo comentou com André Luiz, novel na atividade, que “os antigos acreditavam que entidades mitológicas cortavam os fios da vida humana. Nós somos parcas autênticas, efetuando semelhante operação”.

Sabe-se que muitos mitos guardam correlação com visões, intuições, lembranças de nossa vivência na erraticidade ou de desdobramentos.

As parcas, da mitologia romana, eram as representantes do destino. Em número de três, uma tecia o fio da vida, outra cuidava de sua extensão, e a última cortava o fio. Figurações à parte, e sem jamais esquecer que nós tecemos nosso destino, sob o pálio do livre arbítrio, sabemos da atuação dos espíritos desde o auxílio no nascimento, até o desenlace final, tanto assim que, a Kardec foi dito que, de ordinário, os espíritos nos dirigem. [8]

Jerônimo prossegue em esclarecimentos fisiológicos:

 

– Segundo você sabe, há três regiões orgânicas fundamentais que demandam extremo cuidado nos serviços de liberação da alma: o centro vegetativo, ligado ao ventre, como sede das manifestações fisiológicas; o centro emocional, zona dos sentimentos e desejos, sediado no tórax, e o centro mental, mais importante por excelência, situado no cérebro.

 

Com a aplicação de passes, André Luiz notou a liberação de substância leitosa. Dimas de um gemido, mas antes que novas forças pudessem dificultar o trabalho, Jerônimo cuidou de fortalecer os passes no tórax, de modo que o corpo se desregulou de modo incontornável.

Houve breve descanso da equipe espiritual, que partiu para a intervenção final no cérebro, cuja riqueza merece transcrição:

 

O assistente estabeleceu reduzido tempo de descanso, mas volveu a intervir no cérebro. Era a última etapa. Concentrando todo o seu potencial de energia na fossa romboidal, Jerônimo quebrou alguma coisa que não pude perceber com minúcias e brilhante chama violeta dourada desligou-se da região craniana, absorvendo, instantaneamente, a vasta porção de substância leitosa já exteriorizada. Quis fitar a brilhante luz, mas confesso que era difícil fixá-la, com rigor. Em breves instantes, porém, notei que as forças em exame eram dotadas de movimento plasticizante. A chama mencionada transformou-se em maravilhosa cabeça, em tudo idêntica à do nosso amigo em desencarnação, constituindo-se, após ela, todo o corpo perispiritual de Dimas, membro a membro, traço a traço. E, à medida que o novo organismo ressurgia ao nosso olhar, a luz violeta dourada, fulgurante no cérebro, empalidecia gradualmente, até desaparecer de todo, como se representasse o conjunto dos princípios superiores da personalidade, momentaneamente recolhidos a um único ponto, espraiando-se, em seguida, através de todos os escaninhos do organismo perispirítico, assegurando, desse modo, a coesão dos diferentes átomos, das novas dimensões vibratórias.

 

O espírito elevou-se alguns palmos acima do corpo, ligado apenas pelo “leve cordão prateado, semelhante a sutil elástico, entre o cérebro de matéria densa, abandonado, e o cérebro de matéria rarefeita do organismo liberto”. A genitora envolveu Dimas espírito “em túnica de tecido muito branco”.

Sobre o cordão prateado, Kardec já nos fala em O Livro dos Médiuns, Cap. VII – Da bicorporeidade e transfiguração:

 

“118… durante a vida, nunca o espírito se acha completamente separado do corpo. Do mesmo modo que alguns médiuns videntes, os espíritos reconhecem o espírito de uma pessoa viva, por um rastro luminoso, que termina no corpo…”[9]

 

Para o mundo, Dimas já se encontrava morto, mas o fio prateado foi mantido, porque recém desencarnado não estava preparado para um desenlace mais rápido. Dimas foi confiado à mãe, sendo que o desenlace final dar-se-ia somente “findo o enterramento dos envoltórios pesados”, aos quais ainda se unia pelos últimos resíduos.

O ponto aqui nos chama a atenção. André Luiz, na obra Conduta Espírita, e Emmanuel, em O Consolador, chamam a atenção para que se aguarde tempo adequado antes do processo de cremação, justamente para poupar o espírito de sentir sensações durante o processo:

 

Questão 151 –O espírito desencarnado pode sofrer com a cremação dos elementos cadavéricos? -Na cremação, faz-se mister exercer a piedade com os cadáveres, procrastinando por mais horas o ato de destruição das vísceras materiais, pois, de certo modo, existem sempre muitos ecos de sensibilidade entre o espírito desencarnado e o corpo onde se extinguiu o “tônus vital”, nas primeiras horas seqüentes ao desenlace, em vista dos fluídos orgânicos que ainda solicitam a alma para as sensações da existência material.[10]

 

A obra destaca a ignorância dos encarnados em relação à morte física, pois, na casa repleta para o velório, novas emanações de desespero e conversas inadequadas eram sentidas como choques pelo recém-desencarnado, ou pesadelos. Tais diálogos infelizes no dia a dia, ainda mais o são diante da delicadeza do estado de quem passa de um plano a outro, ainda não completamente desligado do corpo, atraindo para o ambiente espíritos dos mais infelizes.

A mãe de Dimas e seu amigo Fabriciano tiveram profundas dificuldades para atenuar as sensações desagradáveis percebidas pelo recém-desencarnado. Este último ainda relatou que, se Dimas teve cuidado em suas orações, não cultivou a prece em família, de modo que sua casa não estava adequadamente protegida dos espíritos infelizes, a despeito de sua proteção individual.

Uma nova onda de desespero da esposa fez com que Dimas, como louco, deixasse o colo materno e fosse para a sala onde seu corpo era velado. Fabriciano novamente aplicou passes poderosos, prostrando a viúva, enquanto Dimas retornava ao regaço materno.

Na manhã seguinte, André Luiz percebeu o perispírito de Dimas já mais completo, dando a impressão de absorver os últimos fluidos vitais restantes no corpo físico. Finalmente Jerônimo cortou o laço derradeiro:

 

Somente então notei que, se o organismo perispirítico recebia as últimas forças do corpo inanimado, este, por sua vez, absorvia também algo de energia do outro, que o mantinha sem notáveis alterações. O apêndice prateado era verdadeira artéria fluídica, sustentando o fluxo e o refluxo dos princípios vitais em readaptação. Retirada a derradeira via de intercâmbio, o cadáver mostrou sinais, quase de imediato, de avançada decomposição.

 

Ao despertar no plano espiritual, Dimas ainda vivenciava a experiência encarnada, chamando aflitivamente a esposa e sem reconhecer a mãe.

Em O Livro dos Espíritos, já somos alertados para o fato de que a encarnação e o desenlace envolvem um período de perturbação, maior ou menor, conforme a evolução e aceitação pelo espírito:

 

  1. No intervalo da concepção ao nascimento, o espírito goza de todas as suas faculdades?

 

— Mais ou menos, segundo a fase, porque não está ainda encarnado, mas ligado ao corpo. Desde o instante da concepção, a perturbação começa a envolver o espírito, advertido, assim, de que chegou o momento de tomar uma nova existência; essa perturbação vai crescendo até o nascimento. Nesse intervalo, seu estado é mais ou menos o de um espírito encarnado, durante o sono do corpo. À  medida que o momento do nascimento se aproxima, suas idéias se apagam, assim como a lembrança do passado se apaga desde que entrou na vida. Mas essa lembrança lhe volta pouco a pouco à memória, no seu estado de espírito.

 

  1. No momento do nascimento, o espírito recobra imediatamente a plenitude de suas faculdades?

 

— Não: elas se desenvolvem gradualmente com os órgãos. Ele se encontra numa nova existência; é preciso que aprenda a se servir dos seus instrumentos; as idéias lhe voltam pouco a pouco, como a um homem que acorda e se encontra numa posição diferente da que ocupava antes de dormir.

 

  1. Que sensação experimenta a alma no momento em que se reconhece no mundo dos espíritos?

 

— Depende. Se fizeste o mal com o desejo de fazê-lo, estarás, no primeiro momento, envergonhado de o haver feito. Para o justo, é muito diferente: ele se sente aliviado de um grande peso, porque não receia nenhum olhar perquiridor.

 

  1. O espírito encontra imediatamente aqueles que conheceu na Terra e que morreram antes dele?

 

— Sim, segundo a afeição que tenham mantido reciprocamente. Quase sempre eles o vêm receber na sua volta ao mundo dos espíritos, e o ajudam a libertar-se das faixas da matéria. Vê também a muitos que havia perdido de vista durante a passagem pela Terra; vê os que estão na erraticidade, bem como os que se encontram encarnados, que vai visitar.

 

O próprio Paulo de Tarso, em toda a sua fé, sentiu algumas dores finais de seu corpo, após a decapitação:

 

O valoroso discípulo do Evangelho sentia a angústia das derradeiras repercussões físicas; mas, aos poucos, experimentava uma sensação branda de alívio reparador. Mãos carinhosas e solicitas pareciam tocá-lo de leve, como se arrancassem, tão-só nesse contacto divino, as terríveis impressões dos seus amargurosos padecimentos. Tomado de surpresa, verificou que o transportavam a local distante e pensou que amigos generosos desejavam assisti-lo, em lugar mais conveniente, para que lhe não faltasse a doce consolação da morte tranqüila.

Depois de alguns minutos as dores haviam desaparecido por completo…

 

Mas por seus méritos e desejo incansável do trabalho na seara do Mestre, Paulo logo deixa de sentir as dores e não se relata qualquer instante de torpor ou inconsciência. Assim, a transição importa algum tipo de sensação, mas o seareiro do amor não tem apego ao plano físico e logo se reencontra.

Ficando ainda no exemplo de Paulo, quantas igrejas o apóstolo fundou? Quantos problemas vivenciavam? Mas ciente de que a obra é do Cristo, e fortalecido em humildade, o apóstolo da gentilidade não se sentia indispensável aos trabalhos, desapegando-se das conquistas que tanto sofrimento lhe custaram. Mas ao mesmo tempo em que confiava nos que ficavam, não deixou de abrir nova frente de trabalho, a partir do plano espiritual. É essa mesma sabedoria que devemos aplicar em nossas vidas. O que desencarna deixa muitos no planeta, e pode continuar amparando seus entes queridos, mas deve compreender que há diferença entre o trabalho desempenhado pelos encarnados e pelos desencarnados, assumindo seu novo papel e deixando que os que permanecem imersos na matéria cuidem dos problemas do mundo, sem prejuízo da questão essencial que é a da alma.

Dimas somente reconhece a mãe quando ela se apresenta como tal, de modo que a frase direta despertou o recém-desencarnado que, no primeiro momento, ainda manteve as preocupações com a matéria, sendo esclarecido e acalmado pela genitora.

Após o encontro, a mãe recomenda Dimas a Jerônimo, esclarecendo que ainda não estava habilitada a recebê-lo em seus trabalhos por enquanto. Vemos aqui os feixes do amor universal. Dimas ainda não estava pronto para ficar ao lado da genitora, por isso o socorro por meio de Jerônimo.

Certamente cientes das possibilidades de Dimas, e amparado por Jerônimo e pela genitora, foi levado a ver seu corpo e agradecer ao instrumento da jornada terrena. Na sala Dimas reencontrou-se com a esposa e os filhos, mas segundo os conselhos, não se contaminou pelas vibrações inadequadas, proferindo oração.

Mas Dimas não só viu os despojos, como acompanhou o cortejo, protegido pelos amigos espirituais. Ainda que isso nos cause estranheza, a questão é bem explicada. Os cemitérios encontram-se lotados de entidades inferiores, em busca de embebedarem-se com os derradeiros “resíduos vitais” do corpo físico. Então vemos Jerônimo, por meio de passes longitudinais, extrair as últimas enérgicas do cadáver, dispersando-as “na atmosfera comum”, ou seja, são fluidos eminentemente materiais, manipulados pelo mentor.

Após as despedidas, encontrando-se Dimas apto a ser conduzido à Casa Transitória, André Luiz, em sua incansável investigação, fez algumas indagações a Dimas, cabendo transcrição:

 

– Sente, ainda, os fenômenos da dor física? – comecei.

– Guardo integral impressão do corpo que acabei de deixar – respondeu ele, delicadamente –. Noto, porém, que, ao desejar permanecer ao lado dos meus, e continuar onde sempre estive durante muitos anos, volto a experimentar os padecimentos que sofri; entretanto, ao conformar-me com os superiores desígnios, sinto-me logo mais leve e reconfortado. Apesar da reduzida fração de tempo em que me vejo desperto, já pude fazer semelhante observação.

– E os cinco sentidos?

– Tenho-os em função perfeita.

– Sente fome? – Chego a notar o estômago vazio e ficaria satisfeito se recebesse algo de comer, mas esse desejo não é incômodo ou torturante.

– E sede?

– Sim, embora não sofra por isso.

 

Dimas ainda tem as sensações físicas, ou seja, ainda não tem sensações propriamente espirituais, e tais sensações se acentuam no momento em que ele se liga aos problemas da matéria, atenuando-se quando se permite a vida espiritual.

Aqui compreendemos perfeitamente que, embora existam laços unindo matéria e espírito, a ligação mais importante é a do pensamento. Dimas já não tem qualquer vínculo com o corpo, tanto que relata sentir “os padecimentos que sofri”, e não as sensações de putrefação do corpo, como ocorre a tantos espíritos presos à matéria.

Ainda sente, mentalmente, fome e sede, mas estas não mais o agastam. Trata-se do processo de adaptação à nova realidade.

Enfim, Jerônimo é conduzido, sendo que os fatos posteriores nos parecem fugir ao objeto deste estudo, centrado no desligamento do espírito.

Após todas as observações de André Luiz, esperamos que, enriquecidas pela nossa reflexão, temos que lembrar que se trata de um caso que serve como exemplo, e certamente muitos dos eventos narrados ocorrem de modo similar para outros espíritos, ajudando-nos a compreender o inevitável fenômeno da morte. Contudo, se o processo aqui teve suas dificuldades, mesmo envolvendo um espírito trabalhador e ciente das verdades espirituais, bem como dócil às orientações da genitora, podemos imaginar casos mais difíceis, bem como situações mais serenas, com o próprio livro Obreiros da Vida Eterna descreve.

Fabriciano nos lembra que:

 

– … todos os fenômenos do decesso contam com o amparo da caridade afeta às organizações de assistência indiscriminada; no entanto, a missão especialista não pode ser concedida a quem não se distinguiu no esforço perseverante do bem.

 

Assim, temos um relato de um espírito que mereceu o auxílio de uma “missão especialista”, com o que nem todos podem contar, a despeito de todos receberem “o amparo da caridade”.

O narrador transcreve fala de Jerônimo:

 

– Você pode intensificar o relatório das impressões, quanto deseje, interessado em colaborar na criação da técnica descritiva da morte, certo, porém, de que não se verificam duas desencarnações rigorosamente iguais. O plano impressivo depende da posição espiritual de cada um. – negritamos

[1] Conforme questão 356 de O Livro dos Espíritos, é possível que, da fecundação surja um corpo vivo, mas, sem o espírito, não haverá inteligência.

[2] O Livro dos Espíritos

  1. Há diferença entre a matéria dos corpos orgânicos e a dos inorgânicos? “A matéria é sempre a mesma, porém nos corpos orgânicos está animalizada.”
  2. Qual a causa da animalização da matéria? “Sua união com o princípio vital.”

[3] Jesus em Lucas 5:27

[4] O Livro dos Espíritos

  1. O sonambulismo natural tem alguma relação com os sonhos? Como explicá-lo? “É um estado de independência do espírito, mais completo do que no sonho, estado em que maior amplitude adquirem suas faculdades. A alma tem então percepções de que não dispõe no sonho, que é um estado de sonambulismo imperfeito.

[5] Fonte Viva, cap. 72 – Incompreensão: “O bolo de matéria densa reveste-se de lodo, quando arremessado ao poço lamacento, todavia, o raio de luz visita as entranhas do abismo e dele se retira sem alterar-se.”

[6] Questão 625 de O Livro dos Espíritos

[7] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57480472, retirado do site em 09.02.22

[8] O Livro dos Espíritos, questão 459.

[9] Em Nosso Lar, cap. 33 – Curiosas Observações, André Luiz nos descreve a diferença da visão do espírito ainda ligado ao corpo:

“Instantes depois divisei ao longe dois vultos enormes que me impressionaram vivamente. Pareciam dois homens de substância indefinível, semiluminosa. Dos pés e dos braços pendiam filamentos estranhos, e da cabeça como que se escapava um longo fio de singulares proporções…”

 

[10] Na obra Conduta Espírita, do espírito André Luiz, psicografado por Chico Xavier, também encontramos referência, cap. 36 – Perante a Desencarnação:

“… conferir ao cadáver o tempo preciso de preparação para o enterramento ou a cremação. Nem todo espírito se desliga prontamente do corpo.”

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