Por Marcílio Cunha-Filho

 

“Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei homem, fiz desaparecer o que era próprio da criança” (I Cor. 13:11).

A reencarnação, princípio basilar da doutrina espírita, é a crença em que a individualidade ou consciência sobrevive à morte biológica e pode ser transferida a outro corpo.1 Essa crença remonta a épocas imemoriais da humanidade, integrando a cultura de diversas civilizações da antiguidade como Egito, Grécia e Pérsia. Há evidências em pinturas rupestres de que hominídeos paleolíticos também acreditavam no retorno de seus mortos à vida.2 Jesus se referiu de forma indireta à reencarnação, quando afirmou que João Batista teria sido o profeta Elias (Mt. 17:12,13,14).

Atualmente, a reencarnação compõe o arcabouço religioso de vários povos do planeta, especialmente no oriente, fazendo-se presente no Budismo e no Hinduísmo, e estendendo-se a tribos africanas e povos indígenas, desde os peles-vermelhas nos EUA, até os esquimós no Ártico.2 Cerca de 25% dos europeus acreditam em reencarnação, assim como 33% dos norte-americanos e 37% dos brasileiros.3

Mas o que a ciência tem a dizer a respeito?

A ciência moderna tem buscado respostas, ainda de forma tímida, acerca da possibilidade de sobrevivência da individualidade para além da matéria, através de diferentes frentes de trabalho que envolvem manifestações mediúnicas de desencarnados, experiências de quase morte, experiências fora do corpo, experiências de final de vida e estudos de memórias sugestivas de vidas passadas em crianças.4

Entre todas essas linhas de pesquisa, nenhuma apresenta uma coleção de dados tão extensa e robusta quanto a que envolve relatos de crianças que afirmam se lembrar de sua vida passada. Ao longo das cinco últimas décadas, quase três mil casos desse tipo foram investigados em dezenas de países de todas as partes do globo, em sua maioria, sob o crivo acadêmico de prestigiosas instituições como as universidades de Virgínia e de Colúmbia nos EUA, a Universidade da Islândia, a universidade australiana da Tasmânia, entre outras.5 Algumas crianças lembram apenas de fragmentos de sua suposta vida anterior, outras, contudo, demonstram possuir recordações latentes e são capazes de descrever com grande riqueza de detalhes como era a sua outra existência, realizando inferências sobre aspectos da vida de um indivíduo falecido que não são de domínio público.

Um desses casos que ganhou grande repercussão midiática foi o de James Leininger, filho de um pastor protestante nos EUA, que desde os dois anos de idade afirmava que em sua vida anterior era um piloto de aviões da segunda guerra mundial, também chamado James, morto 50 anos antes de seu nascimento. O pequeno James costumava ter pesadelos envolvendo as cenas da queda do avião que o vitimara na outra vida, e retratava o episódio em que fora abatido pelos japoneses em diversos desenhos e com os seus brinquedos. O menino, que demostrava conhecimento técnico inato acerca de aeronaves, forneceu detalhes do acidente fatal que sofrera, como o nome do porta-aviões que serviu de base para a sua frota, chamado Natoma, e o nome de seu colega de trabalho, Jack Larsen. Inúmeras afirmações sobre a vida do piloto feitas pela criança foram comprovadas por familiares do falecido que estavam convencidos de que o pequeno James era a reencarnação do outro James, morto décadas atrás.6

Casos como esse intrigam o meio acadêmico e diversas hipóteses psicológicas para tentar explicar essas ocorrências têm sido consideradas, entre elas, o transtorno dissociativo de identidade, raríssimo distúrbio psiquiátrico em que o indivíduo manifesta múltiplas personalidades independentes que podem ter perfis psicológicos diversos. Esse tipo de condição psiquiátrica, bem como outras relatadas na literatura médica, não é, entretanto, capaz de explicar como a suposta personalidade adicional da criança coincide com a de um indivíduo já falecido, principalmente nos inúmeros casos em que a criança e os seus familiares atuais eram completamente estranhos a personalidade desencarnada.

Para além das descrições fidedignas feitas pelas crianças a respeito de sua vida passada, que superam qualquer possibilidade estatística de acerto, acrescenta-se uma outra espantosa ocorrência. Em 35% dos relatos, essas crianças apresentam marcas de nascença ou deformidades físicas congênitas que guardam grande semelhança a lesões físicas que sofreram no momento da morte do corpo anterior.7 Tais evidências objetivas e mensuráveis tornam ainda mais difícil explicar os casos investigados como distúrbios psiquiátricos ou fraude, dando consistência científica à hipótese da reencarnação. Ainda assim, certos padrões percebidos pelos cientistas nos casos catalogados ainda permanecem sem uma explicação plausível, considerando o conhecimento acadêmico atual.

Nesse contexto, ainda que Kardec não tenha estudado especificamente os casos de crianças que se recordam de sua vida passada, é possível encontrar na doutrina espírita explicações racionais para o perfil traçado nos estudos envolvendo casos sugestivos de reencarnação a partir das memórias de crianças.

Um dos padrões mais recorrentes nos casos investigados, independente da cultura ou da localização do relato, diz respeito ao período em que as crianças espontaneamente manifestam as recordações da vida passada. Essas memórias ocorrem muito cedo, por volta de 1,5 ano e costumam desaparecer por completo quando as crianças atingem sete anos de idade.8 Kardec usou o termo perispírito, em analogia ao perisperma (película que envolve a semente de plantas), para tratar do envoltório sutil e rarefeito que serve de ligação entre o corpo físico e o espírito imortal.9 No livro Missionários da Luz, publicado antes das primeiras pesquisas acadêmicas sobre os casos de memórias de vidas passadas, o autor espiritual André Luiz esclarece que, em cada nova encarnação, a ligação do períspirito com o novo corpo material ocorre de forma progressiva, estabelecendo-se por completo por volta dos sete anos de idade.10 É exatamente durante esse intervalo que as crianças são capazes de acessar quem foram na vida passada, como se houvesse, nesse período, uma porta entreaberta com o passado encarnatório.

Kardec cunhou o termo erraticidade para se referir ao intervalo entre as existências corpóreas, que pode durar de poucas horas até alguns milhares de séculos.9 Os espíritos não fornecem estatísticas acerca da duração desse período, uma vez que inúmeras circunstâncias estão envolvidas, entretanto, na amostragem existente dessas crianças que conseguem se lembrar de sua vida anterior, o tempo médio entre a vida pregressa e o nascimento atual é de 16 meses.11

De onde se conclui que a lembrança encarnatória manifestada nesses casos corresponde à encarnação imediatamente anterior à atual [†]

Uma parte das crianças com recordações de sua vida passada, cerca de 20%, é capaz de descrever também fatos ocorridos na erraticidade. Algumas lembram-se de seu funeral, de conversas que presenciaram entre seus familiares, de encontros com parentes desencarnados, e de estarem em outras dimensões de grande beleza.12 O menino James Leininger afirmava que havia escolhido seus pais quando eles estavam hospedados em um grande hotel rosa que ficava na praia. De fato, os pais de James haviam feito uma viagem de férias ao Havaí onde ficaram hospedados no Royal Hawaiian Hotel, cujos muros são rosa. Eles relataram que decidiram ter um filho nessa viagem e que a mãe de James ficou grávida dele cinco semanas depois.13

Um estudo recente envolvendo centenas de casos de memórias de vidas passadas em crianças de 23 países diferentes identificou que, em 23% dos casos, a personalidade anterior era do sexo oposto ao da vida atual. Nesse grupo de crianças em que ocorreu mudança de gênero, quase todas manifestavam algum grau de não conformidade de gênero, que é diagnosticado quando o comportamento natural da criança é mais compatível com o do sexo oposto.14 A literatura médica tem estudado tais ocorrências e embora haja evidência de que fatores genéticos e ambientais possam estar relacionados com a não conformidade de gênero, a mudança de gênero entre encarnações observada nessa amostragem apresentou uma forte correlação estatística com essa manifestação, jamais reportada para outro fator estudado antes.

O Espiritismo esclarece que os polos masculino e feminino fazem parte da condição humana do mundo material e que, na condição de espíritos em estado de aprendizado, experimenta-se uma e outra situação ao longo de múltiplas encarnações.9 Os espíritos informam ainda que a mudança de gênero entre encarnações não ocorre frequentemente, corroborando os resultados do estudo supramencionado. Comumente, os espíritos passam muitas vidas no mesmo gênero, sendo, portanto, previsível que devido ao condicionamento comportamental moldado durante séculos, sinais, traços e trejeitos do sexo anterior apareçam no momento em que a mudança de gênero ocorre.

Em quase metade dos casos estudados de memórias de vidas passadas, a encarnação anterior remete a um antepassado da criança ou a pessoas que tiveram algum vínculo de convivência com os familiares da atual existência.15 Embora esses casos sejam menos interessantes do ponto de vista da investigação acadêmica, devido à possibilidade de interferência e sugestão do ambiente doméstico na suposta lembrança da criança, essa ocorrência vai ao encontro dos ensinos doutrinários espíritas que reportam que os agrupamentos familiares podem repetir-se ao longo das encarnações, com mudanças de posição na hierarquia familiar, de modo a facilitar um progresso solidário. Nesses agrupamentos planejados, há uma miscelânea de espíritos afins e também antagonistas que submetidos aos laços da consanguinidade encerram suas rivalidades e intensificam suas afeições.16

As crianças objetos dessas pesquisas costumam apresentar padrões de comportamento, gostos e aptidões muito similares ao da personalidade falecida que afirmam terem sido,1 corroborando o que a doutrina dos espíritos chama de Lei do Progresso. Diferente do que muitos imaginam, a cada existência em novo corpo, preservam-se as conquistas nos campos moral e intelectual, como uma nova versão de software atualizada e revisada, contudo, estrategicamente, a lembrança do passado encarnatório é provisoriamente bloqueada quando no corpo, para que a atual experiência possa ser mais proveitosa.16 Mas, se isso está correto, por que essas crianças lembram de sua vida anterior?

Possivelmente, a explicação para isso esteja no gênero de desencarne que experimentaram. 80% dessas crianças recordam vividamente como desencarnaram na vida pregressa, frequentemente de forma trágica, em acidentes ou vítimas de homicídio.17 A recordação desse momento é manifestada na forma de trauma e várias apresentam pesadelos recorrentes relacionados a esse acontecimento.6 A maioria dessas crianças demonstra algum grau de distúrbio de comportamento. Esses sintomas são semelhantes ao do transtorno do estresse pós-traumático, condição caracterizada por manifestações físicas, psíquicas e emocionais decorrentes de atos violentos sofridos ou de situações vivenciadas de ameaça à vida. A experiência dramática e intensa do desencarne parece ser a chave para explicar como essas crianças conseguem, ao menos no intervalo temporal em que a reencarnação não se operou por completo, sobrepassar os mecanismos naturais de esquecimento do passado, e acessar os arquivos perispirituais da memória.

Diante desse cenário, com centenas de casos consistentes de investigações sobre memorias de vidas passadas em crianças conduzidas ao longo de cinco décadas, o que falta para o convencimento científico da reencarnação?

A evidência científica, tão comentada nos atuais tempos de pandemia, está condicionada ao seu escrutínio por diferentes grupos de pesquisa e à comprovação por diferentes meios. Mesmo com todos os avanços tecnológicos disponíveis hoje, a verdade é que, em que pese o preconceito de vários pesquisadores, ainda não foram desenvolvidos instrumentos adequados para identificar a matéria em sua forma mais sutil ou capazes de mensurar o componente espiritual que cerca a matéria. O método científico praticado hoje foi concebido para avaliar a natureza material das coisas, e, de momento, as tentativas de adaptá-lo ao estudo do elemento imponderável são colocadas em xeque.

Inegavelmente, as evidências reunidas a partir dos casos de recordações de vidas passadas despertam discussões e causam desconforto no meio acadêmico, mas ainda não são capazes de oferecer as provas taxativas e incontestáveis da sobrevivência da personalidade à morte física. O Espiritismo fornece ferramentas para entrever, de forma antecipada, os mecanismos envolvidos entre os elementos material e espiritual, mas sem revelar demais, a ponto de comprometer o mérito das descobertas humanas.

Assim, os avanços científicos alcançados nesse campo até agora constituem ainda a ponta do iceberg de um conhecimento cujo alcance já se pode vislumbrar. Espera-se que o convencimento generalizado acerca da sobrevivência da alma amplie os horizontes da humanidade a ponto de mudar o curso das relações humanas, o que poderá alçar o planeta a outro patamar. Em definitivo, quando esse dia chegar, a humanidade terá dado um passo em direção ao Criador.

 

Referências

  1. Slavoutski S. Is the Reincarnation Hypothesis Advanced by Stevenson for Spontaneous Past-life Experiences Relevant for the Understanding of the Ontology of Past-life Phenomena?. International Journal of Transpersonal Studies. 2012 Jun 1; 31(1).
  2. Ribeiro AB. A REENCARNAÇÃO E SUA INTERFACE COM A BIOÉTICA (Doctoral dissertation, Centro Universitário São Camilo). 2009.
  3. de Moraes LJ, Moreira-Almeida A. A Comprehensive Academic Review of Reincarnation Research 1. The Journal of Parapsychology. 2020 Oct 1; 84(2):309-13.
  4. Daher Jr JC, Damiano RF, Lucchetti AL, Moreira-Almeida A, Lucchetti G. Research on Experiences Related to the Possibility of Consciousness Beyond the Brain: a Bibliometric Analysis of Global Scientific Output. The Journal of Nervous and Mental Disease. 2017 Jan 1; 205(1):37-47.
  5. Stevenson I. Metade de uma Carreira com a Paranormalidade. Archives of Clinical Psychiatry. 2007; 34:150-155.
  6. Tucker JB. The Case of James Leininger: an American Case of the Reincarnation Type. Explore. 2016 May 1; 12(3):200-7.
  7. Pasricha SK, Keil HH, Tucker JB, Stevenson I. Some Bodily Malformations Attributed to Previous Lives. Journal of Scientific Exploration. 2005; 19(3):359-83.
  8. Stevenson I. The Phenomenon of Claimed Memories of Previous Lives: Possible Interpretations and Importance. Medical Hypotheses. 2000 Apr 1;54 (4):652-9.
  9. Kardec A. O Livro dos Espíritos. 1857.
  10. Xavier FC. Missionários da luz (pelo Espírito André Luiz). Brasília: Federação Espírita Brasileira. 1945.
  11. Tucker JB. Children’s Reports of Past-life Memories: a Review. Explore. 2008 Jul 1;4(4):244-8.
  12. Sharma P, Tucker JB. Cases of the Reincarnation Type with Memories from the Intermission between Lives. Journal of Near-Death Studies. 2004; 23(2):101-118.
  13. Leininger, Andrea, and Bruce Leininger. Soul Survivor: The Reincarnation of a World War II Fighter Pilot. Hay House, Inc, 2009.
  14. Pehlivanova M, Janke MJ, Lee J, Tucker JB. Childhood Gender Nonconformity and Children’s Past-Life Memories. International Journal of Sexual Health. 2018 Oct 2;30(4):380-9.
  15. Mills A, Haraldsson E, Keil HJ. Replication Studies of Cases Suggestive of Reincarnation by Three Independent Investigators. Journal of the American Society for Psychical Research. 1994 Jul;88(3):207-19.
  16. Kardec A. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1864.
  17. Haraldsson E. Children who Speak of Past‐life Experiences: Is There a Psychological Explanation?. Psychology and Psychotherapy: Theory, Research and Practice. 2003 Mar;76(1):55-67.

[†] Deduz-se ainda que esse curto intervalo entre encarnações poderia facilitar a preservação da memória da vida passada, contudo essa inferência merece mais estudos e uma averiguação minuciosa na literatura espírita.

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