Por Delma Carneiro

 

 

 

 

 

Le Livre des Médiums

Allan Kardec

Paris, 1861

 

A Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, tem por obras básicas o chamado “Pentateuco”: O Livro dos Espíritos (1857), O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868).

Sua publicação estabelece a Codificação da Doutrina Espírita, trazendo as bases e os fundamentos da nova doutrina, considerada como a Terceira Revelação, prometida por Jesus.

O Livro dos Médiuns ou “Guia dos Médiuns e dos Evocadores” constitui-se, no dizer de Kardec, no “ensino especial dos Espíritos sobre a teoria de todos os gêneros de manifestações, os meios de comunicação com o mundo invisível, o desenvolvimento da mediunidade, as dificuldades e os tropeços que se podem encontrar na prática do Espiritismo” [1].

Seu foco são os temas ligados ao intercâmbio com o mundo dos espíritos propriamente dito, seu caráter experimental e investigativo, trazendo ferramentas e orientações teórico-metodológicas para a compreensão e aplicação da então conhecida como “nova ordem de fenômenos”. Esses fenômenos – apesar de já serem conhecidos e experimentados por toda a humanidade desde os vedas antigos, hebreus, egípcios e estando presentes até mesmo em relatos no Antigo e Novo Testamento – ao tempo de Kardec foram tidos como novidade, mas que se tornaram comuns em meados do século XIX, as chamadas “mesas girantes”. As ocorrências observadas constituíam-se de deslocamentos insólitos e aparentemente involuntários realizados por mesas, móveis e objetos variados.

 

Apesar de amplamente praticados em festas e reuniões sociais da Europa à época, até então esses fenômenos jamais haviam sido estudados cientificamente. Por isso, Kardec dedicou-se arduamente por vários anos ao seu estudo e explicação chamando-os de fenômenos espíritas ou mediúnicos, que teriam como causa a intervenção de forças inteligentes invisíveis – os espíritos – na realidade física.

Kardec chegou a essa conclusão porque, além dos deslocamentos aleatórios, ele conseguiu, através de um sistema simples de comunicação simbólica, estabelecer contato com as causas invisíveis dos fenômenos, obtendo respostas inteligentes às perguntas formuladas: era feita uma pergunta e com critérios tais como “uma batida para sim, duas para não”, obtinha sucessivas respostas corretas. Kardec passou, então, a depurar esse método até chegar à moderna técnica da psicografia, utilizada até hoje em reuniões espíritas.

 

 

 

 

 

Lembremos que, na Idade Média, quaisquer ocorrências que não pudessem ser explicadas pela igreja da época eram tidas à conta de misticismo e bruxaria, sendo seus praticantes sacrificados à fogueira ou a outros tipos de morte exemplar.

Sendo assim, o florescimento dos eventos das mesas girantes, numa Europa influenciada pelo Iluminismo, deu-se em ambiente fecundo ao seu estudo científico e técnico, sem deixar de atender aos ensinamentos deixados pelo Cristo quando da sua passagem entre nós, na propagação daquela doutrina que seria o consolador prometido pelo mestre Jesus.

Devido a esse movimento da sociedade em tratar os fenômenos como fatos curiosos dignos de diversão coletiva sem qualquer método ou seriedade, Kardec dividiu o Livro dos Médiuns em duas partes: na primeira traz noções preliminares, explicando e analisando de forma racional a existência dos espíritos, e na segunda abordando as manifestações espíritas de forma técnica, explicando seus fundamentos e prestando orientações que visassem a prática da mediunidade com Jesus, de acordo com as respostas dos Espíritos às perguntas formuladas.

Kardec apresenta, logo na introdução, sua intenção de atender aos praticantes espíritas no sentido de erradicar as dificuldades e os desenganos originados pela ignorância dos princípios da ciência inaugurada com o Livro dos Espíritos, também estabelecida como filosofia e religião, na medida em que apresenta aspecto tríplice.

Desta forma, atende às necessidades da humanidade por algo que não só a reconduza a Deus em seu caráter religioso, visando à transformação moral do homem, mas também lhe sirva de instrumento filosófico à compreensão das consequências morais que dimanam das relações que se estabelecem entre os homens (encarnados) e os espíritos, bem como trata cientificamente (com método próprio) da natureza, origem e destino dos espíritos, e de suas relações com o mundo corpóreo, alijando o caráter até então tido como sobrenatural das comunicações espirituais e demais fenômenos mediúnicos.

Interessante observar que na codificação da doutrina espírita Kardec buscou organizar, mediante a observação e a experiência, o conjunto de conhecimentos relativos à existência espiritual e os fenômenos mediúnicos enfatizando seu caráter científico com base na fé raciocinada.

Sendo assim, Kardec explicita a existência dos espíritos não como seres à parte na criação divina, cuja existência só se prestaria a dar vida a “contos fantásticos”. Mais do que isso, ele demonstra com lógica e racionalidade – sem deixar de lado a fé cristã – que os espíritos se constituem em um princípio inteligente que se encontra fora de um corpo material, comprovando a existência, a sobrevivência e a individualidade da alma fora da vida física.

Por isso, mais do que a demonstração teórica e dogmática do Espiritualismo, encontra-se no Livro dos Médiuns, a demonstração positiva dos fatos mediúnicos e sua explicação e aplicação racional, livre de superstições, com a orientação pormenorizada na sua segunda parte, afirmando-se como obra basilar do Espiritismo.

Presta-se, assim, a combater, com base na razão e nos fatos, a opinião materialista que o Iluminismo também havia trazido à sociedade da época que havia se tornado extremamente cética.

Com isso, os espíritos, esses entes inteligentes da criação divina – assim como nós próprios fora de um corpo material -, puderam, apesar de invisíveis, dispor de meios propriamente estabelecidos para atestar-nos a sua presença de forma mais enfática e precisa do que jamais havia ocorrido antes em todos os povos e épocas, conforme se verifica por relatos nas mais diversas culturas e religiões, inclusive nos livros sagrados.

Mais do que isso, o Livro dos Médiuns veio inaugurar, enquanto parte da codificação da doutrina espírita, uma visão diferenciada de fenômenos que nada mais são do que ocorrências naturais nas relações entre o homem encarnado e o imponderável, com o objetivo e fim útil das comunicações espíritas, qual seja: a compreensão da vida e da nossa condição de filhos de um Deus Pai amoroso e misericordioso, que a tudo preside e que nos fornece todos os meios de evoluirmos moral e intelectualmente, objetivo esse de toda a criação.

 

 

 

 

 

 

[1] Livro dos Médiuns, subtítulo, FEB

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