A Doutrina Espírita – Terceira Revelação, prometida por Jesus – teve suas bases e fundamentos codificados por Allan Kardec e foram estabelecidos pelo chamado “Pentateuco” com a publicação de O Livro dos Espíritos (1857), O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868). 

Na obra intitulada O Céu e o Inferno ou “a Justiça Divina segundo o Espiritismo” Kardec, com o brilhantismo que lhe era peculiar pela gama de conhecimentos que possuía, faz uma análise pormenorizada dos mecanismos pelos quais se processa a justiça divina mediante o paradigma da fé raciocinada, em concordância com os princípios evangélicos trazidos por Jesus e analisados em O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Le Ciel et l’Enfer, Allan Kardec, Paris,1865

Sendo a crença da sobrevivência do espírito à vida corpórea uma das bases da doutrina espírita, bem como o preceito a cada um segundo as suas obras, a obra expõe com brilhantismo a respeito das consequências dos atos dos indivíduos durante ou após a morte do corpo físico: a situação da alma, sua condição no mundo espiritual, as condições do seu desencarne, as futuras encarnações e muitas outras coisas.

A própria obra traz na sequência de seu subtítulo a breve explicação: Exame comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corporal à vida espiritual, sobre as penalidades e recompensas futuras, sobre os anjos e demônios, sobre as penas etc., seguido de numerosos exemplos acerca da situação real das almas durante e depois da morte.

 

Uma obra magnífica, que representa um verdadeiro tratado sobre as divergências, contradições e incoerências encontradas por Kardec entre a ciência e as diversos filosofias doutrinárias e religiosas existentes.

 

 

Nesta conjuntura, a obra é dividida em duas partes:

Na primeira, foi adotado um contexto doutrinário, onde são abordados temas complexos e de importância singular para os adeptos da nova doutrina, quais sejam: o porvir e o nada, o temor da morte, a visão espírita de céu, inferno, purgatório, penas eternas e penas futuras, a concepção de anjos e demônios e, finalmente, a intervenção dos demônios nas manifestações e a proibição de evocar os mortos.

Na segunda parte, temos a demonstração prática dos conceitos cuidadosamente analisados por Kardec na primeira por meio de relatos reais de espíritos em estágios evolutivos variados e que desencarnaram sob circunstâncias diversas.

Conceitos: estados de alma

Na parte conceitual, Kardec traça de maneira clara e objetiva as respostas para os questionamentos que a humanidade vem se fazendo desde os primórdios, mas que as diversas filosofias não têm conseguido explicar:

 

As diferentes doutrinas relativamente ao Paraíso repousam todas no duplo erro de considerar a Terra centro do universo, e limitada a região dos astros.

É além desse limite imaginário que todas têm colocado a residência afortunada e a morada do Todo-Poderoso.

Singular anomalia que coloca o Autor de todas as coisas, Aquele que as governa a todas, nos confins da Criação, em vez de no centro, donde o seu pensamento poderia, irradiante, abranger tudo!

A Ciência, com a lógica inexorável da observação e dos fatos, levou o seu archote às profundezas do Espaço e mostrou a nulidade de todas essas teorias.

As ideias do homem estão na razão do que ele sabe; como todas as descobertas importantes, a da constituição dos mundos deveria imprimir-lhes outro curso; sob a influência desses conhecimentos novos, as crenças se modificaram; o Céu foi deslocado e a região estelar, sendo ilimitada, não mais lhe pode servir. Onde está ele, pois? E ante esta questão emudecem todas as religiões.

  Primeira Parte – Cap. III O Céu, its. 2 e 3 pág. 26

Vemos assim que se Kardec utiliza da argumentação lógica e científica para analisar a impossibilidade da existência do céu ou do inferno em um conceito espacial, demonstrando a existência de um Deus infinitamente justo e bom, que não permitiria o absurdo das penas eternas ou da felicidade eterna apenas a um número limitado de “escolhidos”.

Compreende-se, desta feita, que “céu” e “inferno”, ao invés de locais previamente estabelecidos por um Deus dualista são, na verdade, estados de alma, níveis de consciência, alcançados pelo espírito imortal em meio às experiências vividas ou mediante o aprendizado conquistado. 

Neste particular, vem a doutrina espírita demonstrar seu aspecto filosófico perfeitamente entrosado com a religiosidade, na medida em que responde com sensibilidade, clareza e argumentação lógica às mais profundas questões humanas:

 

O Espiritismo vem resolvê-las demonstrando o verdadeiro destino do homem. Tomando-se por base a natureza deste último e os atributos divinos, chega-se a uma conclusão; isto quer dizer que partindo do conhecido atinge-se o desconhecido por uma dedução lógica, sem falar das observações diretas que o Espiritismo faculta. (…)

O homem compõe-se de corpo e Espírito: o Espírito é o ser principal, racional, inteligente; o corpo é o invólucro material que reveste o Espírito temporariamente, para preenchimento da sua missão na Terra e execução do trabalho necessário ao seu adiantamento. 

(…) Os Espíritos são criados simples e ignorantes, mas dotados de aptidão para tudo conhecerem e para progredirem, em virtude do seu livre-arbítrio. Pelo progresso adquirem novos conhecimentos, novas faculdades, novas percepções e, conseguintemente, novos gozos desconhecidos dos Espíritos inferiores; eles vêem, ouvem, sentem e compreendem o que os Espíritos atrasados não podem ver, sentir, ouvir ou compreender.

(…)

Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-na eles em toda parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço. (g.n.)

Primeira Parte – Cap. III O Céu, its. 4 a 6, pág. 27

Com todos os conceitos explicitados, torna-se clara a responsabilidade de cada um pelo seu próprio destino, na medida em que, de acordo com o livre arbítrio do qual somos dotados, escolhemos por vontade própria o “plantio” do qual resultará, no futuro, a “colheita” obrigatória:

 

Que haja seres dotados de todas as qualidades atribuídas aos anjos, não restam dúvidas. 

(…) O trabalho é o meio de aquisição, e o fim — que é a perfeição — é para todos o mesmo;

(…) Deus não aquinhoa melhor a uns do que a outros, porquanto é justo, e, visto serem todos seus filhos, não tem predileções. Ele lhes diz: Eis a lei que deve constituir a vossa norma de conduta; ela só pode levar-vos ao fim; tudo que lhe for conforme é o bem; tudo que lhe for contrário é o mal. Tendes inteira liberdade de observar ou infringir esta lei, e assim sereis os árbitros da vossa própria sorte. Conseguintemente, Deus não criou o mal; todas as suas leis são para o bem, e foi o homem que criou esse mal, divorciando-se dessas leis; se ele as observasse escrupulosamente, jamais se desviaria do bom caminho. (g.n.)

 Primeira Parte Cap VIII Os Anjos segundo o Espiritismo it. 12, pág. 102

Desta forma, ao analisar as diversas informações obtidas dos espíritos superiores em conjunto com os relatos disponibilizados pelos irmãos desencarnados, Kardec abordou temas importantíssimos não só para as boas práticas mediúnicas, como também para a desmistificação de conceitos vigentes à época. Tal pode ser verificado quando nos deparamos com os interessantes exemplos de espíritos em estágios evolutivos diversos dos quais se podem obter preciosas lições de vida.

 

Exemplos de vida e de morte

 

Desse modo, do trabalho prático levado a efeito durante a codificação resultou a segunda parte, na qual são apresentados esses relatos e histórias por aqueles que, fora do envoltório carnal, exemplificavam os conceitos magistralmente abordados na primeira parte e, por que não dizer, na obra da codificação como um todo.

Desta feita, são trazidas as experiências interessantíssimas sobre a passagem e as condições dos espíritos felizes, em condições medianas, sofredores, suicidas, arrependidos, endurecidos e diversos casos de expiações terrestres que demonstravam na prática como se processa a lei divina de causa e efeito, desconstituindo o conceito de penas eternas, bem como comprovando a existência de vida após a norte:

 

…um dia, como eu, vendo a pátria dos Espíritos, exclamareis: ‘A morte é a vida, ou antes um sonho, espécie de pesadelo que dura o espaço de um minuto, e do qual despertamos para nos vermos rodeados de amigos que nos felicitam, ditosos por nos abraçarem.     Segunda Parte Capítulo II, Espíritos Felizes, Antoine Costeau, pág. 207

Os casos são acompanhados de dados como nomes, referências de locais, acontecimentos e outras informações reais. Há relatos de conhecidos e ex-frequentadores da Sociedade Espírita de Paris, os quais compareciam em espírito às sessões para prestar esclarecimentos após a sua transição, tais como o Sr. Sanson e o Sr Jobard[1], e também de outros que se apresentavam espontaneamente reclamando preces ou simplesmente respondendo às perguntas que lhes eram feitas no intuito investigativo.   Segunda Parte – Capítulo VII Espíritos Endurecidos pág. 326 e ss

[1] Segunda Parte – Capítulo II Espíritos Felizes pág. 159 e 168, respectivamente

A obra traz inúmeros outros casos de manifestações descritas de forma didática por Kardec e que nos demonstram os ensinamentos já anteriormente trazidos nas demais obras da codificação e que se coadunam com a crença no Deus de amor e justiça que encima os postulados da doutrina.

Cada irmão que se apresentava, trazia ensinamentos valiosíssimos para a reflexão dos presentes e que foram eternizados por Kardec na obra em apreço. Um exemplo foi o de Samuel Philippe, que nos ilustra com sua experiência que “haurira no conhecimento do Espiritismo uma fé ardente na vida futura e uma grande resignação para todos os males da existência terrena.”       Segunda Parte – Capítulo II Espíritos Felizes pág. 173

Joseph Bré relata com incrível lucidez haver “um abismo entre a honestidade perante os homens e a honestidade perante Deus. Não basta, para ser honesto perante Deus, ter respeitado as leis dos homens; é preciso antes de tudo não haver transgredido as Leis divinas.” – Segunda Parte – Capítulo III Espíritos em Condições Medianas págs. 219-220

Cada testemunho dado, demonstrava-nos a manutenção da individualidade após a morte e o quanto a consciência de Deus e o comportamento moralizado fez diferença durante após o desencarne:

 

— P. Bom como éreis, por que sofrestes tanto?

— R. Porque ao Senhor aprouve fazer-me sentir duplamente por esse meio o preço da minha libertação, querendo ao mesmo tempo que na Terra progredisse o mais possível.

— P. A ideia da morte causou-vos terror?

— R. Tinha bastante fé em Deus para que tal não sucedesse.

— P. O desprendimento foi doloroso?

— R. Não. Isso que denominais últimos momentos, nada é. Eu apenas senti um rápido abalo, para encontrar-me logo feliz, inteiramente desembaraçado da mísera carcaça.

— P. E que sucedeu depois?

— R. Tive o prazer de ver aproximarem-se inúmeros amigos, notadamente os que tive a satisfação de ajudar, dando-me todos as boas-vindas.

Segunda Parte – Capítulo II Espíritos Felizes, Um Médico Russo pág. 193

 

Em vários desses relatos, o guia espiritual do médium apresentava-se para esclarecimentos adicionais e a apresentação de lições que tornariam a experiência ainda mais proveitosa para o conhecimento das leis divinas por aqueles que da doutrina espírita desejassem usufruir como fonte inesgotável de saber sobre a justiça divina e os destinos dos homens após a morte do corpo.

Por meio de inúmeros casos trazida pelos próprios espíritos já desencarnados, vemos que a justiça divina é a mesma para todos: bons, endurecidos, cegos, rebeldes, suicidas, príncipes, rainhas, amantes, boêmios…

Trata-se de uma obra que, sem dúvida alguma, nos faz refletir sobre a grandiosidade, justiça e inexorabilidade das leis divinas que regem nossas existências.

Disponível a todos, façamos bom proveito desses ensinamentos magníficos apresentados por essa doutrina de luz e sabedoria, que nos ajuda, esclarece-nos e favorece-nos a ligação com o Pai e o mais Alto de modo a progredirmos sempre na escola da vida eterna.

Boa leitura!

 

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