Um olhar da Psicologia Espírita

*Patricia Galvão é psicóloga e membro da AME Planalto

 

O comportamento de julgar, cotidianamente praticado por muitos, é tão complexo que mereceria extensas análises. Segundo o dicionário Oxford1, julgar significa: (1) tomar decisão, deliberar na qualidade de juiz ou árbitro e (2) emitir parecer ou opinião sobre alguém ou algo. Ora, isso implica pensar que há o julgamento legal (das leis do Direito e da Sociedade) e o julgamento pessoal.

Quando se pratica ou se sofre o julgamento pessoal, consequências variadas podem ser observadas em nossos contextos familiar e social: conflitos, deduções erradas, culpa, mágoa e outros. Isso porque, inerente a esse tipo de julgamento, parecem estar as multivisões de um mesmo fato, e cada envolvido terá seus argumentos para sentir ou pensar-se com a razão.

Os diversos pontos de vista que podemos ter de um mesmo evento levam, provavelmente, a julgamentos injustos. Joanna de Ângelis2 nos esclarece que “julgar é medir a conduta do outro com recursos que nem sempre são éticos, justos ou dignos”. No olhar da psicologia profunda, o indivíduo que julga, sem credencial legal, projeta a sombra que habita em si mesmo. Aponta, no outro, falhas, imperfeições e tudo aquilo que detesta em si próprio, numa tentativa de se libertar da culpa e do medo inconscientes.

Jesus, em sua abordagem psicoterapêutica, fez os escribas e fariseus refletirem sobre sua sombra. Quando eles lhe pediram opinião sobre a condenação da mulher adúltera, Jesus questionou singelamente “aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.”3 Ainda convidando a uma autorreflexão, tem-se a passagem descrita em Mateus, 7:3-5, Jesus pergunta “Como é que vedes um cisco no olho do vosso irmão, e não conseguis ver a trave no vosso olho?”3. O quanto somos capazes de ver o mal que há em nós? Será que nos conhecemos a ponto de ser conscientes dos nossos maus sentimentos e comportamentos? Ou ainda estamos no automatismo?

A doutrina espírita nos mostra que, no processo de múltiplas reencarnações, somos herdeiros de nossas próprias ações e o maior desafio é vencer as nossas más tendências. Conforme Emmanuel4, nesse caminho desafiador da vida terrestre, todos nós somos experimentados com provações necessárias à nossa evolução espiritual. Nas múltiplas existências, os equívocos praticados vão se somando, no automatismo e viciação que cultivamos, insculpindo culpa e medo em nosso inconsciente profundo.

Joanna de Angelis5 aponta que duas podem ser as causas psicológicas da culpa: (1) passado espiritual, consciência de ser responsável por males praticados a outros; e (2) a infância, em decorrência da educação que lhe foi dada.

A veneranda ainda classifica a culpa em diferentes tipos, entre elas estão a culpa tormentosa e a culpa lúcida. A culpa tormentosa se dá quando o ato equivocado não é digerido adequadamente e o indivíduo mantém o desejo de ficar aprisionado, até a total extinção do mal praticado. Já a culpa lúcida é caracterizada pela evitação da autojustificação ou transferência de responsabilidade, tendo o indivíduo alcançado um nível de honestidade consigo mesmo. Importante enfatizar que toda forma de culpa leva à sensação ou necessidade de punição que se transforma em autodepreciação e autopunição.

Sob a ótica da psicologia e da neurolinguística, talvez haja benefício em se trocar a palavra julgar, por avaliar e a palavra culpa, por responsabilidade. Segundo Joanna de Ângelis2, julgar implica uma sentença e uma condenação, enquanto analisar consiste de “avaliar para corrigir, educar e ajudar na construção do ser moral psicológico e espiritual”. Sobre responsabilidade, Emmanuel4 afirma que “dificilmente estaremos sem alguma parcela de culpa nas ocorrências desagradáveis de que nos cremos vítimas”. Lembremos da lei de causa e efeito, que nos coloca responsáveis pelas situações em que nos encontramos.

Portanto, com essa simples troca de vocábulos, podemos olhar uns para os outros com mais indulgência e retirar, da ocorrência maléfica, uma oportunidade de auto precaução, para não cair no mesmo equívoco.

Para essa mudança de discurso e de atitude, o autoexame e o autoperdão são imprescindíveis e se fazem urgentes. Emmanuel4 afirma que “efetuando o auto-exame, não mais nos permitiremos qualquer censura, e sim proclamaremos no coração a urgente necessidade de amparo da misericórdia divina, em favor deles e a nosso próprio benefício”.

Na oração pela misericórdia divina em nossas vidas, não nos esqueçamos de exercitar o perdão e o autoperdão. Nos comentários do Evangelho Segundo Marcos, Emmanuel6 afirma que “o perdão tem que estar presente em todos os nossos atos e, na oração, devemos estar livres de máscaras, entrega e análise consciencial”.

À luz da psicologia profunda2, perdoar é superar o ódio e desejo de vingança, não se deixando atingir pelas ocorrências perturbadoras nos relacionamentos interpessoais.

Tendo noção da dificuldade que enfrentamos para superar a culpa e a mágoa, encontramos no exemplo de Jesus o maior modelo de autoconhecimento e perdão. Mas podemos nos utilizar de terapêuticas ao nosso dispor, como a psicologia, medicina e a religiosidade. Nise da Silveira7 sugere etapas para superação da culpa a consequente autoperdão, conforme serão apresentadas.

  • Admita suas falhas: reconhecendo seus erros você não fica sob o controle da culpa
  • Assuma a responsabilidade: fugir e envergonhar-se acentua o sentimento de culpa
  • Repare os danos: sempre que há erro, alguem sai prejudicado; sanar os danos, poderá reverter a situação
  • Faça um compromisso consigo mesmo: experimentando o amargor da culpa, esforce-se para não errar ou não fugir da situação
  • Autoperdoe-se: o perdão a si mesmo traz renovação íntima e equilíbrio

E quando sentir que está no limite de suas forças, lembre-se da palavra carinhosa de Emmanuel4: “Em qualquer tempo, lugar, dia ou circunstância, em que te sintas à beira da queda na tentação ou na angústia, chama por ele. Ele te atenderá pelo nome de Deus.”

 

Referências
1. Oxford Languages. https://languages.oup.com/google-dictionary-pt/. Acessado dia 26 de janeiro de 2022, 12:20h.

  1. FRANCO, Divaldo. Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda, pelo espírito Joanna de Ângelis. 6a ed. Salvador: LEAL, 2021.
  2. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, tradução de Evandro Noleto. 2a ed. Brasília: FEB, 2013.
  3. XAVIER, Francisco, C.. Rumo Certo, pelo espírito Emmanuel. 7a ed. Brasília: FEB, 2019.
  4. FRANCO, Divaldo. Elucidações Psicológicas à Luz do Espiritismo, pelo espírito Joanna de Ângelis. Organizado por Geraldo Campetti e Paulo Pedrosa. 3a ed. Salvador: LEAL, 2020
  5. XAVIER, Francisco C.. O Evangelho por Emmanuel: Comentários ao Evangelho Segundo Marcos. 1a ed. Brasília: FEB, 2019.
  6. NORONHA, Iraci, C.. Reconstruindo Emoções, pelo espírito Nise da Silveira. 1a ed. São Paulo: Intelítera Editora, 2017.

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