Introdução:

Em todas as épocas, em todos os povos, os homens acreditavam, por intuição, em uma vida futura. Porém, sempre houve o questionamento de qual seria o seu destino após a morte. Existiria uma condição diferente para as pessoas que seguem um determinado caminho “A”, que levaria a uma felicidade, em relação às que seguem um caminho “B” que não teriam o mesmo destino?

Não possuindo bases concretas,2 a imaginação fantasiou diversos sistemas de crenças variadas e pontos de fé contraditórios. Para honrar aos deuses e alcançar a felicidade ou infelicidade da alma após a morte, surgiram diferentes deveres e cultos, mas a principal divergência seria quanto às condições determinantes desse destino final.

No princípio, ainda dominados pela matéria, os homens não podiam compreender perfeitamente a espiritualidade, imaginando para as penas e gozos futuros um quadro mais material que espiritual. Todas as religiões primitivas, em consonância com o caráter dos seus seguidores, tiveram deuses guerreiros e sanguinários. Tais ideias a respeito de Deus levavam os homens a honrá-lo ou apaziguá-lo com sangue e então os sacrifícios representavam papel tão importante para religiões da Antiguidade. Mais tarde, esse pensamento evoluiu para um misto de espiritualismo e materialismo.² 

 

O Céu 

Em geral, a palavra céu designa o espaço indefinido que circunda a Terra, e mais particularmente a parte que está acima do nosso horizonte. Vem do latim cœelum, formada do grego coïlos, côncavo, porque o céu parece uma imensa concavidade. Os antigos acreditavam na existência de muitos céus superpostos, de matéria sólida e transparente, formando esferas concêntricas e tendo a Terra por centro. Segundo a opinião mais comum, havia sete céus e daí surgiu a expressão “estar no sétimo céu” para exprimir perfeita felicidade. Os muçulmanos admitem nove céus, em cada um dos quais se aumenta a felicidade dos crentes. A teologia cristã reconhece três céus: o primeiro é o da região do ar e das nuvens; o segundo, o espaço em que giram os astros, e o terceiro, para além deste, é a morada do Altíssimo, a habitação dos que o contemplam face a face.² 

As seitas cristãs, nas suas bases, acreditavam haver para as almas duas situações extremas: a felicidade perfeita, do céu, concorrendo com o sofrimento absoluto, do inferno. Uma pessoa, para ir para o céu, deveria seguir certas normas e viver sem pecado. A felicidade ou infelicidade futura seriam consequência rigorosa da justiça de Deus, porém, o pecador, mesmo sendo o maior culpado receberia a sua misericórdia, desde que se arrependesse antes da morte. A sorte da alma após a morte seria inexorável, e a alma, venturosa ou desgraçada por toda a eternidade. Aqueles que merecessem o céu jamais se encontrariam com aqueles que merecessem ir para o inferno.² 

 

O Inferno

Os povos pagãos tinham os infernos por local de morada dos mortos. O inferno dos pagãos conteria de um lado os Campos Elíseos (local de júbilo e felicidade) e do outro o Tártaro (local de sofrimento), e Plutão seria o seu governante. Segundo essa crença, Plutão se limitaria a governar o império que lhe coubera em partilha, mas não era perverso; retinha em seus domínios aqueles que haviam praticado o mal, porque essa era a sua missão, porém não induzia os homens ao pecado para tripudiar dos seus sofrimentos. No Tártaro, os culpados estariam diante suas vítimas e dos seus crimes, sendo torturados pelo remorso ou então seriam confrontados por aqueles que espezinharam na vida terrestre, procurando, em vão, se esconder dos olhares que os perseguiam, em uma autopunição pelas próprias faltas. As almas são concebidas como sombras, com corpos fluídicos, e lembranças das imagens vividas na sua vida terrestre.

Muitas vertentes cristãs adotaram a ideia geral do inferno dos pagãos, sendo que o rei dos infernos para eles é Satã. Este recrutaria suas vítimas por toda parte, comprazendo-se em atormentá-las. Sua legião de demônios seria armada com forcados para revolver os condenados no fogo eterno. 

Os condenados são vítimas sempre sacrificadas, porém sempre vivas, pois são imortais e sentiriam a tortura desse fogo que queima sem destruir, penetrando-lhes o corpo, que é material, e apresenta os sofrimentos naturais eternizados em suas chagas e suas mazelas. Eles poderiam ser levados a calabouços ou patíbulos e torturados com instrumentos inimagináveis. O mal que os condenados sofreriam no inferno está em relação ao mal que fizeram ou inspiraram a fazer na Terra. Os condenados seriam punidos em todos os seus órgãos e sentidos. Os delinquentes de gula seriam castigados pelos demônios da glutonaria, os preguiçosos pelos da preguiça, os luxuriosos pelos da devassidão, e assim por diante, numa variedade de penas tão grande como a variedade dos pecados.2

 

O purgatório

O purgatório3 só foi admitido pela Igreja católica entre os séculos XII e XIII, mas a discussão a esse respeito era mais antiga e já tinha presença nos escritos de Santo Agostinho, no século IV. Segundo esse teólogo medieval, o indivíduo que teve uma vida mais inclinada ao pecado seria destinado ao inferno, mas poderia sair dessa condição através das orações feitas pelos vivos em sua memória. Já aqueles que não foram inteiramente bons passariam por um estágio de purificação que poderia trazê-los para os céus. 

O purgatório era compreendido como um processo de salvação espiritual que estabelecia penas menos rigorosas e resgatáveis para as faltas de gravidade mediana. As almas do purgatório não se livrariam dele por efeito do seu adiantamento, mas em virtude das preces que se dizem ou que se mandam dizer em sua intenção.

A ideia de um local “intermediário” destinado àqueles que não eram nem bons ou maus não nasceu com a Igreja Católica. 

Os próprios judeus acreditavam que os “intermediários” seriam levados a um lugar onde a pessoa sofreria castigos temporários até que estivessem aptos para viverem no éden. Entre os indianos, estes poderiam viver uma série de reencarnações até que pudessem chegar aos céus ou ao inferno. 

 

Céu, Inferno à Luz do Espiritismo

Na compreensão de céu e inferno à luz do Espiritismo, duas questões são centrais: a bondade divina e a reencarnação.

A reencarnação implica uma série de questões que afasta a possibilidade dos castigos eternos e ventura em um céu ocioso, pois é irmã da evolução, e se há evolução, inerente a todos os seres criados, não há sentido em estados definitivos.

Tais estágios evolutivos têm sua contraparte em lugares espirituais compatíveis com o nível evolutivo dos seres, ou seja, se não é justo que alguém seja eternamente castigado por um crime passageiro – nem a frágil justiça humana é assim tão intransigente –, também não é correto que alguém que cumpriu seus deveres básicos vá para o mesmo plano que outro que dedicou a vida ao semelhante.

Assim, não existe o inferno, já que todos vão se redimir, nem o diabo, pois Deus não criaria um ser exclusivamente mau, ou falível a tal ponto, pois isso mostraria que o próprio Deus é falível em seus projetos. Muito menos faria o Criador um ajuste com um ser desse quilate, para que este ficasse com as almas desviadas.

Não há um céu único, mas diversos “céus” para onde vão os espíritos que já caminham no bem, de acordo com a evolução de cada um. As ideias de diversos céus, como os sete céus, são uma intuição nesse sentido.

O céu também não é um lugar de ócio, mas de trabalho, pois, como disse o Cristo: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também. (João 5:17)

Os exemplos mais notórios são os relatados pelo espírito André Luiz na obra “Nosso Lar”. O umbral é um local para espíritos infelizes, e Nosso Lar é uma colônia espiritual para onde vão espíritos no início da jornada de transformação. Mas além destes, há inúmeras outras esferas, piores ou melhores, conforme a evolução do espírito.

A despeito disso, há que se abstrair da visão material da questão, não se podendo olvidar que céu e inferno, mais que lugares, são estados de espírito, ou seja, um espírito puro não passa ao estado de sofrimento pelo fato de encontrar-se encarnado na Terra, ou em missão de socorro no umbral, nem o espírito infeliz abandona suas dores, por se excursionar em um plano superior. André Luiz saiu do umbral e foi recebido em Nosso Lar, mas enquanto não se reconciliou com a própria história, não logrou paz.

Em relação à bondade divina, não se pode conceber um Deus bondoso, se condena seus filhos a castigos eternos. A bondade divina se expressa na reencarnação, que é um processo educativo do espírito que passa por provas e expiações no seu processo de aperfeiçoamento.

Assim, céu e inferno, à luz do Espiritismo, podem ser vistos como os diversos planos espirituais que galgamos, conforme a nossa sintonia moral e intelectual, representados inclusive por cidades espirituais, como Nosso Lar, mas nunca em caráter definitivo, pois caminhamos para o Criador, ou seja, sempre evoluímos rumo ao bem, e a cada conquista atingimos um novo patamar.

E acima de tudo temos céu e inferno como estados da alma, pois a condição da alma não se altera em face de estar em um ou outro plano.

 

Anjos e demônios

Os anjos são figuras comuns em quase todas as doutrinas religiosas, mesmo que recebam nomes diferentes. A maioria das culturas antigas e modernas, em suas mitologias ou em suas religiões, fala de seres celestes, que são intermediários entre os homens e as divindades e que trazem em si a representação do bem ou do mal.

A palavra ‘anjo’, procedente do latim ‘angelus’ e do grego ‘ággelos’, tem o sentido de mensageiro.4 Quando uma pessoa ouve a palavra anjo, evoca uma figura com asas, portadora de muita luz, bondade, suavidade e beleza.

Na doutrina judaico-cristã tradicional, estas entidades celestiais teriam nascido perfeitas, mas algumas delas teriam se rebelado contra o Criador e se convertido em seguidoras de Satanás, o primeiro anjo caído. Ao longo do desenvolvimento histórico da civilização judaico-cristã, a imagem do demônio foi sendo construída, ligada essencialmente à representação do mal.6

Inicialmente, o diabo não tinha uma função necessariamente maligna e era apenas a representação de um dos intermediários entre o reino divino e a humanidade. A palavra demônio vem do grego daímon (em latim, daemon) e se traduz por gênio, inteligência e se aplicava aos seres incorpóreos, bons ou maus, indistintamente e a palavra diabo deriva do grego, diabolos (dia – atirar + bolos – espalhar) aquele que espalha – no sentido moral, caluniador, que afasta as pessoas.7

Em outras religiões, também existem os conceitos de anjos e demônios. No Budismo e no Hinduismo,8 são seres divinos denominados “devas” que apresentam uma personalidade “quase” humana. São invisíveis, mas sua proximidade pode ser sentida por pessoas que conseguiram abrir o terceiro olho, um dom extra sensorial que permite enxergar seres de outros planos. Seu nome deriva da raiz sânscrita “div”, que significa “brilhar”, que significa, então, os “seres brilhantes” ou “autoluminosos”. Para eles, os devas podem construir formas ilusórias para se manifestarem, são capazes de voar, operar milagres e muitas vezes trazer mensagens aos humanos.

Para os islâmicos,9 os anjos são seres feitos de luz, tendo sido criados antes do ser humano. Diferentemente do homem, criado da terra, não possuem o livre arbítrio e consequentemente não desobedecem às determinações de Deus. Foram criados, em sua maioria, com uma aparência bela. Não possuem sexo, não se alimentam e não têm necessidades fisiológicas. A angelologia islâmica divide os anjos em dois partidos principais, os bons, fiéis a Deus, e os maus, cujo chefe é Iblis ou Ash-Shaytan que era um jinn e foi criado pelo próprio Alá.

Na Teosofia,8 os anjos são considerados seres de um dos muitos reinos da criação divina. São seres em evolução, havendo então diferenças de poder, sabedoria, amor e inteligência entre seus integrantes. Eles existiriam por causa própria e não em função da humanidade, embora a ajudem sempre que necessário, sendo que auxiliar os homens faz parte de sua missão, especialmente para os anjos da guarda, a classe que estaria diretamente ligada à humanidade.

Na Grécia antiga,10 a crença era que os “daimones” se situavam entre os deuses e os humanos e essa palavra não tinha uma conotação negativa e nem era a representação do mal. A função dos daimones era dividida em:

 

  1. Fazer a intermediação entre os deuses e os seres humanos: interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens (as súplicas e os sacrifícios), e aos homens o que vem dos deuses (as ordens e as recompensas pelos sacrifícios). Como os deuses não podem se misturar com os homens, os daimones atuariam como mensageiros e intérpretes. Seus meios de comunicação são o conhecimento oracular dos adivinhos e profetas, os sonhos e a voz interior que precisam ser compreendidos e interpretados. A princípio, a possibilidade de interpretação parece ser inata a todos os homens, mas, como qualquer possibilidade, depende de condições favoráveis para se desenvolver.

 

  1. Condutores de almas: cada alma escolhe o daímon que a acompanhará, quanto a vida que levará. A responsabilidade pelas duas escolhas será atribuída inteiramente a ela e nenhum dos deuses poderá ser acusado de interferir nesse processo. Após as escolhas, o daímon terá a seguinte função: “guardar a sua vida e fazer cumprir o que a pessoa escolheu.” Na passagem da alma para o reino dos mortos, o mesmo gênio protetor que o acompanhava na vida física a conduzirá até o local determinado pelos deuses.

  2. Protetores de homens e lugares: cada homem era obrigado a conduzir a sua própria vida, sendo, portanto, responsável pelas suas consequências, fossem boas ou más, porém, a infelicidade surgia somente quando os homens se orientavam por si mesmos, não percebendo a orientação direta do seu “daímon”.

 

Na doutrina Cristã, existem os relatos de que um anjo anunciou o nascimento de Jesus a Maria e José, bem como orientou a fuga para o Egito para preservar sua vida. O Evangelho traz várias passagens em que Jesus promoveu curas através da expulsão dos demônios de pessoas doentes e consta que, na sua trajetória pessoal, foi tentado por Satanás, no deserto.

 

A religião católica divide os anjos em sete hierarquias, de acordo com as suas funções, algumas mais próximas a Deus e outras mais próximas aos homens e acredita que os demônios seriam anjos que se rebelaram contra a autoridade de Deus.11

 

Anjos e Demônios à Luz do Espiritismo

 

Para o Espiritismo,5 anjos e demônios não são seres à parte, são todos espíritos. Essencialmente, trata-se de uma nomenclatura. Os que já atingiram elevado grau de pureza, são denominados anjos. Aqueles renitentes no mal, são chamados demônios, embora tal denominação seja pouco usual no meio espírita, haja vista que termos como espíritos imperfeitos representem melhor a transitoriedade do estado de maldade, pois que todos os espíritos serão puros um dia, ou seja, todos, inclusive os demônios, seremos “anjos”, percorrendo a senda da purificação por meio das reencarnações.

Deus criou a todos os espíritos, inclusive aos anjos, simples e ignorantes, para que estes pudessem se esclarecer e evoluir gradativamente. Quando percorrerem as diferentes fases da jornada, todos os espíritos se tornarão perfeitos – mas na perfeição relativa da criatura, que não se confunde com a perfeição absoluta do Criador.  Os que hoje são anjos, já tiveram a sua própria jornada evolutiva e chegaram ao grau de espíritos puros.

O bem e o mal são praticados em virtude do livre arbítrio,² sem que o espírito seja fatalmente impelido para um ou outro sentido. O seu estado, feliz ou desgraçado, é inerente ao seu grau de pureza ou impureza alcançados. 

A alma ou espírito sofre na vida espiritual as consequências de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal, sendo-lhe depois facultada uma nova vida corporal como meio de reparação. Persistindo no mal, sofrerá as consequências por tanto tempo quanto durar a persistência, do mesmo modo que, dando um passo para o bem, sente imediatamente os efeitos benéficos dessa escolha.

O arrependimento é o primeiro passo para a regeneração, mas não basta por si só; são necessárias a expiação e a reparação. Arrependimento, expiação e reparação constituem as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências. O arrependimento suaviza os traços da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito, porque lhe destrói a causa. A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal. O único meio de evitar ou atenuar as consequências futuras de uma falta está no repará-la, desfazendo-a no presente. Quanto mais nos demorarmos na reparação de uma falta, tanto mais penosas e rigorosas serão, no futuro, as suas consequências.

As tendências que uma pessoa apresenta são reflexos dessas imperfeições que ainda não foram despojadas. Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se o não for em uma existência, será na seguinte ou seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si. Cada um de nós trabalha no próprio adiantamento com maior ou menor atividade, com mais ou menos negligência, acelerando ou retardando o progresso e, por conseguinte, a própria felicidade. É um fruto do esforço individual.5

Didaticamente, dividimos essas fases de adiantamento em três categorias principais. Na última, a que fica na parte inferior da escala, estão os espíritos imperfeitos, caracterizados pela predominância da matéria sobre o espírito e pela propensão para o mal. Os da segunda se caracterizam pela predominância do espírito sobre a matéria e pelo desejo do bem: são os bons espíritos. A primeira, compreende os espíritos puros, os que atingiram o grau supremo da perfeição.

Os espíritos de primeira classe já percorreram todos os graus da escala e se despojaram de todas as impurezas da matéria. Tendo alcançado a soma de perfeição de que é suscetível à criatura, não têm mais que sofrer provas, nem expiações. Não estando mais sujeitos à reencarnação em corpos perecíveis, realizam a vida eterna no seio de Deus.

Gozam de inalterável felicidade, porque não se acham submetidos às necessidades, nem às vicissitudes da vida material. Essa felicidade, porém, não é a de ociosidade monótona, a transcorrer em perpétua contemplação. Eles são os mensageiros e os ministros de Deus, cujas ordens executam para manutenção da harmonia universal. Comandam a todos os espíritos que lhes são inferiores, auxiliam-nos na obra de seu aperfeiçoamento e lhes designam as suas missões. Assistir os homens nas suas aflições, incentivá-los ao bem ou à expiação das faltas constitui para eles ocupação gratíssima. São designados às vezes pelos nomes de anjos, arcanjos ou serafins e reúnem todas as perfeições. A suprema felicidade só é compartilhada pelos espíritos perfeitos ou puros que a conseguem somente após progredir em inteligência e moralidade. 

Os espíritos da segunda classe suscitam bons pensamentos, desviam os homens da senda do mal, protegem na vida os que se lhes mostram dignos de proteção e neutralizam a influência dos espíritos imperfeitos sobre aqueles que não devem sofrê-la.
Quando encarnados, são bondosos e benevolentes com os seus semelhantes. Não os movem o orgulho, nem o egoísmo, ou a ambição. Não experimentam ódio, rancor, inveja ou ciúme e fazem o bem pelo bem. A esta ordem, pertencem os espíritos designados, nas crenças vulgares, pelos nomes de bons gênios, gênios protetores e Espíritos do bem. 

Pela palavra “demônios” entendemos se tratar dos espíritos impuros5, mas deve ficar claro que esse estado não é perpétuo, e sim transitório. São espíritos imperfeitos, que se rebelam contra as provas que lhes tocam e que, por isso, as sofrem mais longamente. Podem sair daquele estado quando quiserem, se trabalharem para isso, sendo certo que um dia o farão, pois todos temos a chama divina, que nos leva inevitavelmente ao bem e ao amor.

Os homens, uma vez que ainda precisam de figuras e imagens que lhe impressionem a imaginação, tomaram os seres incorpóreos sob uma forma material, com atributos que lembram as qualidades ou os defeitos humanos e considerou aos espíritos puros como anjos e aos inferiores como seres perpetuamente maus5, ante a dificuldade de enxergar o tempo inexorável da imortalidade do espírito.

 

Anjo da Guarda

Uma categoria especial de anjo que é citada em muitas religiões é a do anjo guardião ou anjo da guarda5, também conhecido como espírito protetor. É aquele anjo especial designado por Deus, por intermédio de espíritos também angelicais, para nos orientar e proteger durante a nossa vida na Terra. Eles se ligam particularmente a um indivíduo para protegê-lo e sempre pertencem a uma ordem elevada para guiar o seu protegido pela senda do bem, auxiliá-lo com seus conselhos, consolá-lo nas suas aflições, levantar-lhe o ânimo nas provas da vida. Esse encargo é aceito por prazer, porém, algumas vezes, por missão ou dever.

O espírito protetor se dedica ao indivíduo desde o seu nascimento até a morte e muitas vezes o acompanha na vida espiritual, ou mesmo através de muitas existências corpóreas, que representam apenas curtíssimas fases da vida do espírito.

Alguns espíritos podem deixar a sua posição de protetor para desempenhar diversas missões, mas, nesse caso, outros os substituem. Podem se afastar, quando veem que seus conselhos são inúteis, quando percebem que o seu protegido prefere se submeter à influência dos espíritos inferiores, mas, nesses casos, não o abandonam completamente e sempre se fazem ouvir. Muitas vezes é o protegido quem tapa os ouvidos. O protetor volta desde que seja chamado.

Não existem espíritos capazes de parar a sua evolução e nunca progredir,² pois isso seria uma negação da lei de progresso, que rege todas as criaturas. Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo da guarda (guia) que por eles vela, observa os seus movimentos e se esforçam por suscitar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir, de reparar em uma nova existência o mal que praticaram. Contudo, essa interferência do guia faz-se quase sempre ocultamente e de modo a não haver pressão, pois o espírito deve progredir por impulso da própria vontade, nunca por qualquer sujeição. 

Antes da reencarnação, espíritos generosos nos endossaram as súplicas da alma e amigos interferiram nos serviços de auxílio, contribuindo na organização de particularidades da luta redentora. Esses irmãos e educadores passam a ser nossas testemunhas permanentes, enquanto perdurar a nova tarefa e nos falam sem palavras, nos refolhos da consciência. Filhos e pais, esposos e esposas, irmãos e parentes consanguíneos do mundo são protagonistas do drama evolutivo. Os observadores, em geral, permanecem no outro lado da vida.12

 

Anjos e Demônios e a Terra

Anjos e demônios são os símbolos que utilizamos para representar os espíritos que nos acompanham. Essa companhia virá por influência mútua e pode ocorrer tanto para o bem quanto para o mal,13 de acordo com a escolha de cada um. Nós podemos ter contato com espíritos mais adiantados, mas também podemos sofrer influências dos espíritos imperfeitos, aos quais nos associamos por livre vontade. O que determinará a qualidade dos espíritos que se afinam conosco é o teor a nossa vida e dos nossos pensamentos. O pensamento é nosso instrumento criador e nós vivemos no seio das criações mentais a que demos origem. Através da qualidade do que pensamos, aprisionamo-nos ou criamos asas de liberdade, com que progredimos. Para que nos elevemos e voluntariamente nos coloquemos em conexão com espíritos de maior evolução, devemos criar o hábito da oração, que pede luz, amor e verdade.14 

Uma vez que os espíritos estão por toda parte no universo, os mundos são de preferência os seus centros de atração, em virtude da analogia existente entre eles. Em torno dos mundos adiantados abundam espíritos superiores, como em torno dos atrasados pululam espíritos inferiores. Cada globo tem, de alguma sorte, sua população própria de espíritos encarnados e desencarnados, alimentada em sua maioria pela encarnação e desencarnação dos mesmos. Cada espírito se purifica gradativamente, até que esteja bastante puro para deixar os mundos de expiação e ir para mundos mais felizes. E esse prazo está vinculado ao melhoramento individual. 

Dos mundos superiores, verdadeiros focos de luz e felicidade, alguns espíritos se destacam para mundos inferiores a fim de semear os germens do progresso, levar-lhes consolação e esperança e levantar os ânimos abatidos pelas provações da vida. Por vezes também se encarnam para cumprir com mais eficácia a sua missão, como vemos no caso da encarnação de Alcíone, retratada na obra “Renúncia”, do espírito Emmanuel.

Os espíritos imperfeitos são excluídos dos mundos felizes, cuja harmonia perturbariam. Ficam nos mundos inferiores a expiar as suas faltas pelas tribulações da vida, e purificando-se das suas imperfeições até que mereçam a encarnação em mundos mais elevados, mais adiantados moral e fisicamente. Cada ser traz consigo o próprio castigo ou prêmio, onde quer que se encontre, sem necessidade de um lugar circunscrito. 

Recentemente, o Papa Francisco, representante atual da Igreja Católica, afirmou, em desacordo com os dogmas antigos, que o inferno “não é uma sala de tortura”… consiste em estar afastados para sempre do “Deus que dá a felicidade”, do “Deus que tanto nos ama”. Não é uma condenação, mas é você que vai, por escolha própria. 

O inferno está por toda parte em que haja almas sofredoras, e o céu igualmente onde houver almas felizes.  A ideia de sofrimento se aplica à Terra e ao seu grau de evolução, de provas e expiações.

Quando nós, que a ela estamos vinculados, conseguirmos evoluir e melhorar, retornaremos ao mundo invisível como bons espíritos e depois, encarnando novamente formaremos uma humanidade corporal de elementos aperfeiçoados.

O inferno está por toda parte em que haja almas sofredoras, e o céu igualmente onde houver almas felizes. Se pudermos conceber um lugar circunscrito de castigo, designaremos os mundos de expiação, em torno dos quais pululam espíritos imperfeitos desencarnados à espera de novas existências que lhes permitam reparar o mal e alcançar algum progresso.   

Essa ideia de sofrimento se aplica à Terra e ao seu grau de evolução, de provas e expiações. Quando nós, que a ela estamos vinculados, conseguirmos evoluir e melhorar, retornaremos ao mundo invisível como bons espíritos e depois, encarnando novamente formaremos uma humanidade corporal de elementos mais aperfeiçoados, concorrendo não apenas para a evolução individual, mas também planetária. 

Bibliografia

  1. Teixeira, R. Vida e Valores, 153. Curitiba: Federação Espírita do Paraná. 2008. Kardec, A. O Céu e o Inferno. 1865.
  2. Sousa, R.G. A Invenção do Purgatório. Aparecida de Goiânia: Mundo Educação. 
  3. Dicio, Dicionário Online de Português. 
  4. Kardec A. O livro dos Espíritos. 1857. 
  5. Amaral, R. (2011). O Demônio entre a Religião e a Religiosidade Cristã: o Legado Oriental para um Monoteísmo de Percepção Dualista. Mneme-Revista de Humanidades, 12(29). 2011. 
  6. Teixeira, R. O Céu e o Inferno na Visão Espírita. Curitiba: Federação Espírita do Paraná. 2018. 
  7. Monteiro, G. A Presença dos Anjos nas Religiões. WeMystic Brasil. 2021. 
  8. Lima, M.A.P.L. Satã e Íblis. A Representação do Mal no Cristianismo e no Islamismo. João Pessoa. Universidade Federal da Paraíba, 2018. 
  9.  Costa VP. O “Daimon” de Sócrates: Conselho Divino ou Reflexão? Cadernos de Atas da ANPOF. 2001 (1): 101-9. 
  10. Oliveira, L; Lima, C.C. Como é a Hierarquia dos Anjos Católicos? Grupo Abril: Super Interessante. 2020. Acesso:
  11. Xavier FC. Pão Nosso (pelo espírito Emmanuel). Brasília: Federação Espírita Brasileira. 1950
  12.   Campetti Sobrinho, G. A. Entre Dois Mundos. Brasília: Federação Espírita Brasileira. 2017.
  13. Xavier FC. Fonte Viva (pelo espírito Emmanuel). Brasília: Federação Espírita Brasileira. 1952. 
  14. Vatican News. Vaticano: Dicastério da Cúria Romana. 2018 (4)

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