Entre os diversos ensinamentos transmitidos por Jesus, na preleção do Sermão do Monte, está aquele que exorta a não se colocar na posição de julgador de outra pessoa: a famosa máxima do “não julgueis, para que não sejais julgados”  (MT, 7:1).

A autoridade moral do Cristo, por si só, mostra-se suficiente para estimular o cumprimento dessa premissa. Afinal, trata-se do espírito mais perfeito que já viveu na Terra, em uma encarnação inteira de profundo amor e devotamento, oferecendo-se como modelo e guia para a humanidade.

Nada obstante, a doutrina espírita lança verdadeira luz sobre a questão, mostrando, a partir de uma perspectiva de maturidade espiritual, que o “eu” não é apenas o destinatário dessa lição, mas também seu principal beneficiário.

Em uma primeira perspectiva, verifica-se que o julgamento do outro incita o orgulho próprio, dado que a posição de julgador pressupõe estar em um contexto de superioridade de qualidades ou de importância, por se entender incapaz de cometer ato semelhante, bem como por se atribuir o direito de adentrar na problemática de outrem. Como nos diz o Evangelho segundo o Espiritismo, “quando criticais, que consequência se há de tirar das vossas palavras? A de que não tereis feito o que reprovais, visto que estais a censurar; que valeis mais do que o culpado1.

Assim, para aquele que está em busca da reforma íntima, convém evitar tudo aquilo que sobreexcita o orgulho principalmente se considerado que é neste vício, juntamente com o egoísmo, que se encontram as raízes de todas limitações humanas1.

Além disso, ao julgar outra pessoa, o indivíduo se depara com a enorme probabilidade, quiçá a certeza, de cometer uma injustiça.

A experiência humana é extremamente complexa, de forma que a maneira de agir de cada um resulta da combinação de inúmeros elementos. Portanto, se no atual estágio evolutivo da Terra, sequer é dado ao indivíduo o conhecimento de todos os fatores que definem a si mesmo, como se apropriar da consciência de outrem e sentir sua realidade, usando um coração que não o pertence?2. Diante do desconhecimento do próprio histórico, não terá o julgador cometido falta análoga, ou porventura mais grave?

O julgamento pessoal, que ignora as causas geradoras dos problemas, “demonstra o primitivismo moral do homem ainda ‘lobo’ do seu irmão” e constitui, em última análise, o cometimento de verdadeira desumanidade em relação àquele que erra3. Logo, em face da completa incapacidade de efetuar um julgamento justo, preferível é abdicar da função de inquisidor, compreendendo que a justiça genuína provém de Deus e todos viverão para conhecê-la2.

A aplicação da justiça divina é exatamente o foco da exortação de Jesus, que é assim complementada: “Não julgueis, para que não sejais julgados; porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros; empregar-se-á convosco a mesma medida de que vos tenhais servido para com os outros” (MT, 7:1-2).

Não se trata de um processo de barganha com o Divino: em verdade, o Mestre faz remissão ao principal mecanismo de aplicação da lei de justiça, que é o tribunal da consciência4.

A consciência, que tem a lei de Deus insculpida4, é responsável pela avaliação das condutas do próprio indivíduo, de modo que cada espírito é réu e juiz de si mesmo, trazendo consigo o castigo ou recompensa a que faz jus5. Isso porque toda violação consciente ao dever insculpe na alma a culpa e o remorso, que geram doloroso processo de autoflagelação e programam, por automatismos, seus processos reparadores3.

Portanto, ciente da intransigência e intolerância da conduta julgadora, a consciência a registra na contabilidade das próprias faltas, de modo que toda contribuição de impiedade, mediante os julgamentos arbitrários, gera elementos de futura aflição para o acusador3.

Outro fator de grande relevância quanto à crítica da realidade alheia é destacado por Joanna de Ângelis, na análise de aspectos da psique humana à luz da doutrina espírita. A benfeitora salienta que, ao julgar seu semelhante, o indivíduo termina por realizar, de forma inconsciente, um fenômeno de projeção da sua sombra, como forma de autojustificação3. Trata-se de um mecanismo para se esquivar do confronto com as próprias imperfeições e aplacar a consciência culpada. Nesse processo haveria a propensão de notabilizar no outro aquilo que se detesta em si próprio6 .

Essa conjuntura pode ser depreendida da figura alegórica usada pelo Cristo que, em arremate à premissa do “não julgueis”, questiona a tendência humana de realçar o cisco no olho de seu próximo, apesar da trave que dificulta a própria visão (MT 7:3).

A análise da postura de julgamento contumaz demonstra, ainda, que ela compromete a lei da fraternidade não apenas com relação àquele que é julgado, mas de uma forma muito mais ampla, pois gera propensão para uma visão de mundo baseada em uma separação estanque entre bons e maus. Esse pensamento induz à atribuição de diferente valor às pessoas, como se o cometimento de equívocos as tornasse menos humanas. Cuida-se, todavia, de verdadeiro engano, já que todos são igualmente importantes para Deus, uma vez que a alma mais transviada, assim como o melhor dos homens, foi criada com o propósito único de chegar à perfeição1.

Não se pode olvidar, ainda, que a concepção maniqueísta da sociedade é extremamente perigosa, uma vez que levou a humanidade a verdadeiras atrocidades, a exemplo das cruzadas e da Inquisição7 –  eventos que geraram muita dor e destruição.

De outro lado, o cumprimento do ensino do Cristo, com a tarefa de retirar a trave do próprio olho, conduz à percepção de que o mal, em verdade, é apenas a ausência do bem, assim como a escuridão representa a falta de luz. E se até os buracos negros – os objetos mais escuros que se podem conceber – emitem alguma luz8, o coração decaído sempre possui, em suas dobras mais ocultas, o gérmen de bons sentimentos1.

Nessa proposta, descobre-se que aquele até então rotulado de malfeitor é apenas uma pessoa comum, ainda que equivocada; movido pelos mesmos sentimentos que todos, mas cego pelas próprias dificuldades.

A partir daí, compreende-se que a indulgência com as imperfeições alheias é inerente ao verdadeiro sentido da palavra caridade e sobreleva como caminho único4 na trajetória humana. Apreende-se que ela consiste em um dever para todos – pois ninguém há que não necessite de indulgência para si próprio1 – e representa verdadeiro alvará para a libertação de si mesmo2.

Para finalizar a reflexão ora proposta, cumpre pontuar, todavia, que há sempre grande distância entre julgar e discernir. Por conseguinte, não há falta no exame de uma conduta equivocada, quando o intuito é apenas distinguir o erro da verdade9, ou seja, quando realizado em decorrência do próprio atributo da razão, como forma de auxiliar e corrigir outrem ou de nortear a própria educação moral.

A sutileza se encontra, em primeiro lugar, na análise da atitude específica e não propriamente da pessoa. Ademais, reside na finalidade e na forma como é feita: é legítima quando movida por solidariedade ou auto precaução, mas extremamente prejudicial, como visto, quando tem por objetivo a crítica e censura4.

Em verdade, se cabe alguma exprobração, que seja ela relativa aos nossos próprios sentimentos e atitudes; se nos compete algum julgamento, que seja de nos julgar irmãos em humanidade9, como nos ensinou aquele cuja doutrina resplandecia luz e amor. Afinal, como disse Madre Teresa de Calcutá, aquele que julga as pessoas não tem tempo para amá-las. E não há quem prescinda do amor para viver2.

 

Referências

 

[1] Kardec, A. O evangelho segundo o Espiritismo. 1864.

[2] Xavier FC. Evangelho por Emmanuel: comentários ao evangelho segundo Mateus. Brasília: Federação Espírita Brasileira. 2014.

[3] Franco DP. Jesus e Atualidade (pelo espírito Joanna de Ângelis). Salvador: Leal, 2014.

[4]  Kardec, A. O livro dos Espíritos. 1857.

[5]  Kardec, A. O céu e o inferno. 1865.

[6] Franco DP. Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda (pelo espírito Joanna de Ângelis). Salvador: Leal, 2014.

[7] Dias HD. Transição Planetária e Evangelho – 2ª Parte. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TJAFbUs8nnw&t=2973s.

[8] Qual a velocidade do eterno oposto da luz, a escuridão? Disponível em: https://realidadesimulada.com/qual-a-velocidade-do-eterno-oposto-da-luz-a-escuridao/.

[9] Xavier FC. O Consolador (pelo espírito Emmanuel). Brasília: Federação Espírita Brasileira. 2013.

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